



Coleo Primeiro Amor - A Linguagem do Amor
A LINGUAGEM DO AMOR
KATE EMBURG

Garotas s querem se divertir ...
Miguel encarou Leanna com seus olhos escuros amendoados e disse: - Voc  muito bonita. Voc tem namorado?
O corao de Leanna bateu mais rpido. "No se esquea de contar a Miguel sobre o Scott, seu namorado, em Fair Oaksl", ela se repreendeu. "Voc no tem o direito 
de se entusiasmar com a voz profunda e os olhos sensuais deste belo estranho. 11
Mas Scott, o namorado, estava a centenas de quilmetros.
Leanna olhou de lado para Miguel por baixo de seus longos clios. "Por que no me divertir um pouco neste meu ltimo dia aqui em San Diego?" E, numa piscada de olhos, 
Scott e sua vida em Fair Oaks transformaram-se numa lembrana distante.



Um
- Leanna! Leanna acorda!
Leanna Van Haver apertou os olhos fechados e cobriu a cabea com o travesseiro. Mas no foi suficiente. Os gritos ardidos de seus meio-irmos - no, meio monstros, 
se corrigiu - penetravam atravs do travesseiro ferindo seus tmpanos. Toms e Juan j eram irritantes sozinhos; e totalmente insuportveis quando eles a torturavam 
em estreo.
- Quero ir pra casa -, gemeu Leanna embaixo do travesseiro. Mas o som abafado no deteve os meninos, que com suas mozinhas comeavam a puxar seu brao e lhe fazer 
ccegas.
' 'Se a minha fada-madrinha aparecesse agora'', pensou Leanna, ''sei exatamente o que eu pediria. Desejar estar em casa em Fair Oaks, na minha cama, dormindo at 
o meio-dia com a porta trancada, e que Juan e Toms fossem transformados em Sapos!''
Felizmente, seu desejo se realizaria no dia seguinte. Tudo, menos a parte dos sapos,  claro. Ela voltaria para Fair Oaks, Califrnia - um subrbio de Sacramento 
-, onde poderia voltar a dormir em paz, sem ser incomodada por Toms e Juan.
Jogando o travesseiro, Leanna sentou-se na cama. - Escutem, seus diabinhos...
Mas ela no conseguiu terminar a frase. O corao de Leanna se derreteu quando viu a cara dos dois menininhos, olhando pra ela com adorao. Toms , de seis anos, 
tinha as mas do rosto saltadas, a pele morena bronzeada, e era magro e alto para a sua idade. Ele e Leanna se pareciam com seu pai, Carlos Malig. Juan, de quatro 
anos, era uma copia pequena e gorducha de sua me, Dora Malig, madrasta de Leanna. Os dois meninos eram to engraadinhos - Toms, um homenzinho, e Juan, um anjinho 
de pele morena - que Leanna no teve coragem de ameaar vend-los ao circo, ou dar-lhes algum outro castigo horrvel que achou que mereciam por acord-la daquele 
jeito irritante.
- Eles s esto agitados. Nunca tiveram uma irm mais velha antes -, tinha explicado Dora  Leanna. At aquele vero, Leanna s conhecia seu pai, Carlos, por meio 
de cartas, telefonemas e das histrias que a me contava. A nova esposa e os filhos de Carlos tinham sempre sido apenas rostos estranhos em fotografias. 
Os Malig tinham morado sempre nas Filipinas, enquanto Leanna, sua me e o padrasto viviam no norte da Califrnia. Mas agora Carlos era professor de uma escola em 
San Diego.
Quando Carlos convidou Leanna a passar o vero com ele e sua nova famlia em San Diego, ela ficou ansiosa em conhec-los. Ansiosa e nervosa tambm. Ter irmos pequenos 
era uma experincia completamente nova para ela. Em casa, em Fair Oaks, a nica irm de Leanna era sua meia-irm, Kelli, apenas alguns meses mais velha do que ela. 
Leanna esticou o brao e afagou o cabelo de Juan. - Ento, meninos vocs querem que eu levante no?
- Sim - respondeu Toms. Juan assentiu. - Ma diz que podemos ir ao Festival Filipino quando estivermos todos prontos.
Leanna sorriu. - Ela disse? Mas eu no quero nem saber de levantar to cedo! Acho que vocs vo ter que me tirar da cama.
Gargalhando deliciados, os meninos mergulharam no sof-cama em que Leanna dormiu durante todo o vero, sacudindo a armao de metal e amassando as cobertas. Leanna 
jogou um cobertor na cabea de Juan, depois segurou Toms com uma mo e com a outra comeou a fazer ccegas.
- Meninos! Parem! Parem! Deixem sua Irm em paz!
A madrasta de Leanna, Dora apareceu na porta que dava para a sala de estar, com seu filho mais novo, Toby, de dois anos, sentado em seus quadris. As sobrancelhas 
escuras de Dora estavam franzidas no que Leanna julgou ser uma careta que, longe de amedront-la, provocou-lhe uma risadinha. Sua madrasta era jovem e bonita demais 
para dar uma de brava, especialmente com Toby segurando seus brincos de prata.
- Fui eu que pedi para ver se voc j estava acordada - , desculpou-se Dora -Lamento que esse pedido tenha se transformado nessa praa de guerra!
- No se preocupe, eu no ligo. Alm do mais eu  que estava ganhando, - Leanna abraou cada um dos seus meio-irmos com um brao. - Eles no estavam me incomodando, 
juro.
- Eles j sabem. - Com algumas palavras speras em tagalo, Dora mandou seus filhos correndo para o quarto deles. Ento, sorriu para a enteada e disse: -Magandng 
umga. 
- Uh... bom dia? - adivinhou Leanna. Desde que chegara a San Diego, h dois meses, Carlos e Dora vinham tentando ensin-la a falar tagalo, uma das lnguas mais faladas 
nas Filipinas. Leanna era meio filipina e meio americana e, depois de dois meses pronunciando errado todas as palavras em tagalo, ela chegava  concluso que sua 
lngua era parte de sua metade americana.
Dora bateu palmas. -Muito bem! Voc vai ver Leanna, logo estar falando tagalo como uma nativa.
- Mas eu vou voltar para casa amanh - lembrou Leanna.
- Sempre h o ano que vem. At l voc pode praticar com as fitas que seu pai comprou pra voc. Assim, da prxima vez que ele lhe encontrar vai ficar muito orgulhoso 
com tudo o que voc j souber.
Leanna no respondeu. Seria grosseiro dizer a Dora que ela achava que aprender uma lngua estrangeira como tagalo daria muito trabalho e no teria muita utilidade. 
Seria ingrato, at cruel, acrescentar que ela nem sabia se queria voltar no ano seguinte. Carlos e seu famlia haviam feito de tudo pra proporcionar a Leanna umas 
frias maravilhosas, mas para ela os Malig era apenas parentes distantes.
Apesar de Leanna ter recebido sempre cartes de aniversario e fotos de Carlos desde que se conhecia por gente, no tinha nenhuma proximidade com ele. Ela era um 
beb quando seus pais se divorciaram ocasio em que Carlos retornou a Manila. E sua me se casou de novo antes que ela completasse dois anos.
Jason Van Haver, padrasto de Leanna, era o nico ''pai'' que ela realmente conhecia. Era por isso que chamava Carlos pelo nome - e no de ''papai'' ou ''pai''. Qualquer 
outra coisa a fazia sentir-se desleal com sua me e seu padrasto. Quanto a passar todos os veres e alguns feriados com os Malig... bom ela temia ferir os sentimentos 
dos Van Haver. Alm de no gostar de ficar longe de toda a programao com os amigos de Fair Oaks.
Quando Dora voltou para a cozinha, Leanna se perguntou se no deveria ter dito algo simptico sobre sua estada e sobre aprender tagalo. Leanna no queria chatear 
Dora . Apenas era difcil interessar-se por uma lngua e por uma cultura sobre as quais no sabia nada e no entendia nada.
Carlos e Dora se comportavam como se ainda estivessem nas Filipinas. Comiam comidas estranhas, a maioria de seus amigos era formada por filipinos e, quando alugavam 
vdeos, era de uma videolocadora de filmes em tagalo. Claro que era interessante conhecer outra cultura, mas Leanna no queria que isso fosse para sempre. Uma me 
e um pai j eram suficientes. Ela no precisava de mais nenhum pai ou me e de um novo conjunto de regras. 
Leanna pulou no sof-cama, esticou as cobertas e o dobrou o colcho para dentro do sof. S mais uma noite dormindo na sala, graas a Deus!
Andando silenciosamente at a cozinha com os ps descalos, Leanna viu Dora preparando uma frigideira de tocino, ou bacon filipino. Toby, agarrado  perna de Dora, 
mastigava um pedao de abacaxi seco.
- Oh Leanna! - Dora se virou, com uma esptula na Mao. - No vi voc entra.
-Humm, este tocino est com um cheio delicioso - mentiu Leanna, que no agentava o cheiro doce, nem o gosto, do bacon filipino. - Posso te dar uma mo? - perguntou.
- Obrigada - concordou Dora, olhando para Toby, cujas mos grudentas estavam agarrando sua perna. - acho que precisa troc-lo. O pacote de fraldas...
-Sei onde est - respondeu Leanna puxando Toby. Ele choramingou reclamando, mas ela o levou para o quarto dos meninos assim mesmo. '' Quando me ofereci para ajudar 
estava pensando em pr a mesa'', resmungou para si mesma. Tinha a impresso de que passara as frias inteiras trocando fraldas. Em vez de conhecer seu pai biolgico, 
tinha ficado familiarizada com um traseiro fedido de um beb.
- Depois de caf da manh, vamos as Balboa Park para assistiro Festival Filipino - gritou-lhe Dora do corredor. - Queramos te fazer um agrado no seu ultimo dia.
Leanna reclamou alto. Um agrado! Andar pelo Balboa Park sob o sol escaldante, comendo uma comida estranha, e ouvindo as pessoas tagarelando numa lngua que ela no 
entendia! Oba!
- H algo errado? - perguntou Dora, parecendo preocupada de verdade.
Por um momento, Leanna pensou em dizer a verdade. Dora - aos vinte e sete anos - era apenas onze anos mais velha que Leanna, parecia mais irm mais velha do que 
uma madrasta. Ela se perguntava se Dora poderia entender como ela se sentia. Ela queria gritar: "Sim! Algo est muito errado! Estou com saudades da minha me, meu 
padrasto, da minha meia-irm e de todos os meus amigos! Sei que Carlos me ama e eu quero am-lo. Quero amar vocs todos, mas eu mal os conheo. No sei onde me encaixo!".
Leanna apertou uma fralda limpa em volta da cintura de Toby, pegou o menininho e voltou para a cozinha. Tinha decidido contar para Dora como se sentia. Quando entrou, 
encontrou Carlos encostado no balco , vestindo uma camisa comprida bordada, segurando um chapu de palha de abas largas.
- Que tal meu barong Tagalog, Leanna?- disse cumprimentando-a. -  o traje nacional filipino.
-Ah, voc esta falando da camisa ou do chapu? - ela perguntou.
Carlos deu um sorriso, Dora juntou-se a ele e at o pequeno Toby riu.
Leanna ficou envergonhada. Estavam rindo dela. Sentiu-se burra! Estava cansada de no se encaixar, apesar de seus longos cabelos pretos e da sua pele bronzeada.
"Sou americana" pensou "Por que os Malig no aceitam quem eu sou e param de me empurrar toda essa cultura filipina goela abaixo?"
Dois
- Desculpe - disse Miguel Sarmiento a sua irm, Carrie. Voc sabe que s vou sair com garotas filipinas daqui por diante.
Miguel virou-se para o espelho em cima de sua cmoda, considerando o assunto encerrado. Passou um pente pelo seu cabelo preto, acabando de se arrumar para ir ao 
Festival Filipino. Havia prometido ajudar a vender camisetas e seu turno comearia em
uma hora. Mas sua irm, Carolina, ou Carrie, como insistia em ser chamada, no pretendia desistir do assunto.
- Desde quando? - perguntou, plantada na porta do quarto que Miguel dividia com seu irmo de treze anos, Ramon. - O que h de errado com Tiffany?  minha melhor 
amiga!
- No h nada de errado com Tiffany. Ela  muito sensual. Avisa que eu vou sair com ela - anunciou Ramon, deitado na parte de cima do beliche, antes que Miguel pudesse 
responder.
Ele estava deitado de costas, folheando uma revista de motocicletas.
Carrie lanou-lhe um olhar de desprezo. - Desculpe, bobo. A Tiffany no sai com pirralhos. - E voltando-se para Miguel disse: - Tiffany  bonita e voc no saiu 
com ningum desde que Julie te deu o fora.
- Ela no me deu o fora! - disse furioso, deixando cair o pente com barulho em cima da cmoda. - Foi um acordo mtuo.
-  - interrompeu Ramon com uma risada maldosa. - Voc concordou depois que Julie apareceu no baile dos calouros com outro cara.
Miguel respirou fundo, sem nimo para responder. Era verdade que Julie Bromberg tinha comeado a sair com outro cara sem se preocupar em romper com ele antes.
Mas doeu ainda mais quando ele se lembrou como tinha defendido Julie junto aos seus pais, que no gostavam da idia de ele estar saindo com uma garota americana. 
Ele achava que Julie se sentia como ele. Mas estava errado.
Devia ter escutado seus pais e arrumado uma simptica filipina para sair. Algum que estivesse mais preocupada em ser leal do que conquistar caras com carres e 
muita grana. Mas Miguel no podia contar a Carrie e Ramon como se sentia. Sua irm, com
o cabelo curto e seu minivestido justo, e seu irmo, usando um nico brinco e o cabelo comprido preso num rabo-de-cavalo, pareciam ter-se esquecido de que at dois 
anos atrs apenas eles viviam nas Filipinas. Agora estavam nos Estados Unidos e para eles
isso era tudo o que importava.
Miguel balanou a cabea. Eles dariam risada de sua cara se Ihes contasse que tinha medo de sair com Tiffany. Ela era bonita, mas muito namoradeira. Iria atrs de 
qualquer rapaz que olhasse para ela e, depois de conquist-lo, ficaria cheia e o dispensaria.
Miguel sabia que Tiffany era uma jogadora, que s se importava mm ela mesma. Miguel no era assim, por isso no queria uma namorada que agisse dessa forma.
Ignorando Ramon e Carrie, Miguel olhou-se no espelho. "Ser que era feio? Seu rosto anguloso e moreno era muito magro? Suas sobrancelhas longas eram muito emininas? 
Talvez devesse deixar crescer um bigode." Algo de errado, alguma falha terrvel de devia ter para Julie rejeit-lo.
- O que h com voc? - perguntou Carrie. - No pode passar a vida chorando por causa de Julie. Tiffany est livre e gosta de voc.
- Ela te acha sexy - acrescentou Ramon com aquele sorriso malicioso que tinha desde que comeara a andar com seus novos amigos americanos. - Voc devia se aproveitar 
disso.
-  assim que voc trata as garotas? - perguntou Miguel.
- Aproveitando-se delas?
- Fica frio, cara - disse Ramon de forma rude. - Voc no sabe mais se divertir.
- Ramon est certo - disse Carrie a Miguel. - No ia te fazer nada mal relaxar e sair um pouco.
- J te disse, no estou interessado. Quando eu me apaixonar, ser por alguma menina sria, honesta, que tenha considerao, seja quadrada e respeite a tradio.
- D um tempo! - disse Carrie interrompendo com uma risada alta. - Voc anda escutando a Ma e o Papa de novo.
- No te faria mal fazer o mesmo.
Carrie apenas riu. - S porque voc quer! Estou caindo fora.
- Eo Festival Filipino? - perguntou Miguel. - Voc no vai?
Carrie balanou a cabea, fazendo com que seu cabelo cheio de pontas ficasse em p como os de um porco-espinho. - Vou para a casa de Tiffany, dar-lhe as ms notcias.
- Nem eu vou. - Ramon jogou sua revista no cho pulando de cima do beliche. - Vou sair com Chuck e os meninos.
Miguel ficou de boca aberta, sem conseguir dizer nada por um momento. Ramon e Carrie no podiam estar pensando seriamente em perder o Festival Filipino! Seus pais 
j estavam l, montando o equipamento e preparando a comida no parque. Esperavam que todos os seus sete filhos aparecessem mais tarde, e todos, com exceo de Joy, 
de cinco anos, deveriam trabalhar voluntariamente nas barracas.
- Vocs tm que ir - disse Miguel. -  importante. No s para a Ma e o Papa, mas para toda a comunidade filipina.
Enquanto seu irmo e sua irm hesitavam, Miguel continuou. - Alm disso, Ramon, voc no devia andar com Chuck. Ele  muito chato.
Os olhos de Ramon se inflamaram. - No me diga o que fazer. Pelo menos eu tenho amigos americanos. - Enfiando um bon de beisebol sobre seu cabelo longo e despenteado, 
Ramon se precipitou para fora do quarto, com as mos enterradas at o fundo dos bolsos das calas muito largas, que ele vestia imitando os rapazes de sua turma da 
pesada. 
Miguel virou-se para Carrie. Mas ela lanou-lhe um olhar feroz. - No espere minha ajuda, irmozinho. Primeiro, voc ofendeu minha amiga, e agora est insultando 
os de Ramon. Nem todos podem ser perfeitos como voc - disse saindo do quarto. Aps
alguns minutos, Miguel ouviu a porta da frente bater.
Miguel esfregou a testa. De repente, ficou com uma dor de cabea de rachar. Como as coisas deram to errado?
"Queria que nunca tivssemos deixado as Filipinas."
Por um momento, Miguel sentiu uma pontada de saudade de casa. Ele sentia saudade de seus avs e de seus amigos que ainda viviam no barrio onde ele crescera. Ele 
no fizera nenhum amigo ali. E, assim que achou uma namorada - bem, no tinha dado
certo.
Miguel se olhou no espelho uma ltima vez, penteou seus cabelos negros e lisos, colocou seu pente no bolso de trs. Ele podia ser um pouco baixo pelos padres americanos, 
mas seus braos bronzeados eram musculosos. Talvez ele no fosse o cara mais legal do mundo, mas pelo menos todas as garotas que o vissem hoje saberiam onde estava 
seu corao. Sua camiseta novinha em folha, que orgulhosamente exibia a bandeira vermelha, branca e azul das Filipinas, garantia isso.
Duas horas depois, Miguel havia vendido dezenas de camisetas iguais  sua, mas no havia tido a sorte de encontrar uma linda garota de cabelos negros para ajud-lo 
a se esquecer de como se sentia sozinho. Ele vira muitas garotas bonitas passeando
pela festa ao ar livre, mas a maioria delas estava de mos dadas com outros rapazes. As poucas garotas sozinhas que chegavam perto dele pareciam estar comprando 
camisetas para impressionar seus namorados.
No era justo! Miguel estava cercado por centenas de pessoas, mas se sentia completamente sozinho. Ele desviou o olhar do casal feliz na sua frente ...
E se viu encarando a mais linda garota que tinha visto na vida.
Ela tinha mais ou menos a sua idade. Seus longos cabelos negros estavam soltos, como uma cortina de pura seda preta, deslizando por seus frgeis ombros, para descansar 
no meio de suas costas. Seu perfil era o de uma escultura: nariz reto, queixo delicado, cada trao perfeitamente talhado com mo firme.
Ela vestia um terno amarelo vivo, um vestido antiquado com um decote quadrado e mangas que ficavam levantadas como asas de borboleta. Sua saia, na altura dos joelhos, 
deixava  mostra suas macias pernas morenas. Geralmente, Miguel no reparava muito nas roupas das garotas, mas esta era diferente. Ningum da sua idade vestia um 
traje filipino to tradicional. A maioria das garotas filipinas vestia jeans ou shorts.
Mas ela no parecia enxerg-lo. A linda desconhecida passou determinada pela trilha, olhando para a frente, em vez de olhar as barracas que ladeavam a passagem. 
Miguel nunca vira essa garota antes, mas isso no era incomum. San Diego era uma cidade
grande, e muitas pessoas haviam vindo de fora para se juntar  multido no festival.
Ele estava to hipnotizado pela garota que, a princpio, no notou o carrinho de beb que ela empurrava  sua frente. Ser que era casada? No, aquele garotinho 
gorducho no carrinho devia ser seu irmo.
Algum falou bem alto. - Acorde, garoto! Quanto custa a camiseta?
Miguel virou-se e viu um homem de meia-idade encostado no balco, com uma camiseta branca jogada sobre seu brao forte e moreno.
Quando Miguel terminou de atender o fregus, quis olhar para a garota novamente. Mas ela sumira. Rapidamente, ele se virou para a amiga de sua me, que era a responsvel 
pela barraca de camisetas. - Senhora Lisondra.
- Vai, vai - ela deixou escapar, sorrindo enquanto o enxotava. - Voc j ficou aqui mais de duas horas, e nenhum outro menino ficou mais de uma hora. No h muitos 
jovens como voc, Miguel.
- Obrigado, senhora Lisondra.
Enquanto tentava localizar a garota angelical, Miguel pensou que, sem saber, a senhora Lisondra havia cutucado sua ferida. No existiam muitos adolescentes como 
ele, que fizessem tanta questo de preservar o passado.
Mas, com um pouco de sorte, ele estava prestes a encontrar mais uma.
Trs
- Ako si Miguel. Ano ang pangalan mo?
Leanna escutou algum falando, mas continuou andando, achando que a voz profunda e musical estivesse cumprimentando algum perto dela. As pessoas se apinhavam a 
sua volta, mas Leanna se sentia invisvel. Ela no conhecia ningum, com exceo
dos Malig.
Finalmente, ela tinha conseguido ficar um pouco longe deles! De todos, menos de Toby, mas, com um pouco de sorte, ele dormiria logo. Tinha sido uma filha obediente 
durante a manh inteira, concordando at em usar uma roupa esquisita com mangas
estranhas viradas para cima, que Carlos tinha comprado para ela. Depois do almoo, ela se props a tomar conta de Toby, enquanto os outros assistiam a uma apresentao 
de msica e dana folclrica filipinas. Tinha duas horas inteiras para ficar sozinha.
Como pretendia pass-Ias o mais longe possvel do Festival Filipino, Leanna se dirigiu para o outro lado do parque,  procura de um playground, onde pudesse brincar 
com Toby e encontrar pessoas que falassem ingls.
Pelo caminho, Leanna olhava as barracas enfileiradas, at que umas camisas muito coloridas chamaram a sua ateno, e ela desviou o carrinho naquela direo para 
olhar mais detalhadamente.
Kelli adoraria estar aqui, pensou, passando as mos sobre o tecido macio de uma blusa azul-turquesa com lantejoulas prateadas nas mangas e no decote. Sua irm Kelli 
gostava de roupas extravagantes e a cor combinaria perfeitamente com seu cabelo loiro.
Ou talvez um daqueles colares de contas da barraca vizinha seria melhor. Nem parecia que ela tinha tanta pressa em ir embora do festival. Na verdade, tinha at coisas 
interessantes, reconheceu Leanna.
- Ako si Miguel - repetiu a voz masculina, desta vez bem perto dela. - Ano ang pangalan mo?
" um cara - e ele est falando comigo!" Leanna ficou chocada ao perceber. "Mas no conheo nenhum rapaz aqui. E, certamente, ningum com uma voz to sensual!"
Apertando a ala do carrinho de Toby, Leanna virou-se e comeou a dizer a primeira e nica frase que sabia pronunciar corretamente em tagalo: Hindf ko maintindihan, 
que queria dizer "No entendi".
Ento, ela deu uma boa olhada no estranho, e as palavras ficaram presas na sua garganta. Por um momento, Leanna no conseguia pensar em nada para dizer nem em ingls, 
nem em tagalo, nem em espanhol, ou em qualquer outra lngua falada ao seu redor.
O garoto era muito atraente, magro, talvez um pouco baixo, mas era mais alto do que os seus 1m55. Em Fair Oaks, seu namorado, Scott Carteret, era to alto que ela 
tinha que se inclinar para trs para ver o seu rosto. Beijar era um grande desafio. "Talvez seja por isso que no nos beijemos muito", pensou Leanna. Olhar diretamente 
nos olhos de um garoto era uma experincia nova, estranha - mas interessante.
O cara tinha provavelmente a idade dela. Seu rosto era de menino, mas seus braos eram musculosos, como se pertencessem ao corpo de um homem. Ele deve levantar muito 
peso, pensou, enquanto observava como seus bceps esticavam as mangas
de sua camiseta. Por cima das cores vermelho, branco e azul da . bandeira filipina de sua camiseta, estava escrito ORGULHO FILIPINO, em grandes letras negras.
No era fcil tirar os olhos do seu peito forte. Mas, quando Leanna finalmente conseguiu, ela viu cabelos lisos muito negros emoldurando uma face redonda com lbios 
risonhos e profundos olhos castanhos, que a encaravam maliciosamente.
Falando em ingls, e apontando para Toby com a cabea, perguntou: - Que gracinha de menino.  seu filho? 
- No,  meu irmo Toby. "Ser que este cara pensa mesmo que pareo velha o suficiente para ter um filho?!" - Quantos anos voc acha que tenho? - perguntou Leanna 
ao belo estranho.
Ele encolheu os ombros. Seus msculos faziam coisas interessantes na bandeira da sua camiseta, conforme ele se mexia. Uh, catorze? Quinze?
- Tenho dezesseis! - Acabava ali sua esperana de que estava comeando a parecer mais velha. - E no planejo ter filhos antes de me formar na escola - e na faculdade.
Ela pretendia colocar o cara em seu lugar, mas ele apenas riu.
- Nunca se sabe - ele disse, curvando-se para afagar a cabea de Toby.- Voc poderia ser de uma das Tribos das Montanhas. Aquelas garotas se casam cedo. Aos quinze 
anos, uma garota Igorot ou lfugao bonita j tem filhos.
Leanna encolheu os ombros. Ser que Carlos j tinha mencionado alguma vez as Tribos das Montanhas? Se o fez, Leanna no havia prestado ateno. Ela esperava desesperadamente 
que esse cara maravilhoso no quisesse discutir, nesse momento, os hbitos das Tribos das Montanhas. De alguma forma, ela tinha certeza de que um gato com uma camiseta 
onde estava escrito "Orgulho Filipino" no ficaria impressionado com a sua completa ignorncia sobre qualquer coisa filipina.
Antes que ela pudesse pensar em outro assunto qualquer, que no as Filipinas, o belo estranho se endireitou. Ele colocou uma mo perto da de Leanna, no carrinho, 
e olhou para ela com seus olhos escuros amendoados e disse: - Voc  muito bonita. Voc
tem namorado?
O corao de Leanna bateu mais rpido. "No se esquea de contar a Miguel sobre o Scott, seu namorado, em Fair Oaks!", ela se repreendeu. Voc no tem o direito 
de se entusiasmar com a voz profunda e os olhos sensuais deste belo estranho."
Mas Scott, o namorado, estava a centenas de quilmetros.
Ele telefonara algumas vezes durante as frias daquele vero, mas em vez de faz-Ia se sentir melhor, a voz de Scott fazia seu exlio parecer mais doloroso. Ela 
a lembrava de que Scott, Kelli e todos os seus outros amigos estavam se divertindo em Fair Oaks, enquanto ela estava presa em San Diego, sem ningum da sua idade. 
Alm disso, as coisas entre eles tinham ficado meio esquisitas desde a ltima vez que se encontraram. Ser que estavam se distanciando?
Leanna olhou de lado para Miguel por baixo de seus longos clios. "Por que no me divertir um pouco neste meu ltimo dia aqui em San Diego?" - Se eu tenho namorado? 
Bom, isso depende do que voc me perguntou antes em tagalo? Era algo indiscreto?
O garoto riu, e seus olhos se dobraram nos cantos. - Perguntei o seu nome e me apresentei. Ako asi Miguel significa "Eu sou Miguel". Tenho dezessete anos, meu ltimo 
nome  Sarmiento e moro em San Diego, mas nasci nas Filipinas. Agora  a sua
vez. Quem  voc, alm da irm mais velha de Toby?
Leanna olhou para baixo, com medo de encontrar seus olhos. Se ela se apresentasse como Leanna Van Haver, Miguel certamente perguntaria por que ela no tinha um nome 
filipino. Ela teria que explicar que sua me era americana - no filipina - e no
queria dar detalhes de sua complicada vida familiar no momento. Alm disso, por que contar detalhes pessoais de sua vida para um cara que ela acabava de conhecer?
- Eu sou ... quero dizer, ako si... Leanna Malig. - O nome pareceu estranho e esquisito para ela.
Ela olhou nervosamente para Miguel. Ser que ele percebeu que ela tinha dado um nome falso?
- Leanna Malig - ele repetiu com firmeza.
- Seu nome  Malig e voc no fala tagalo? Seus pais deveriam se envergonhar!
Leanna deixou escapar um suspiro lento e profundo. - Eu nasci e cresci na Califrnia - explicou. - Acho que meus pais queriam que eu fosse completamente americana.
Uma inequvoca expresso de desaprovao cruzou o rosto de Miguel. - No h nada de errado com os Estados Unidos, mas voc no deveria desconsiderar sua herana 
filipina. - Ele balanou os braos, num gesto abrangente que englobava as bandeiras
filipinas, a multido em movimento, as faixas brilhantes. -  isso que importa.
De repente, apesar da multido rindo ao seu redor, Leanna sentiu-se completamente sozinha. Em casa, na Bayside Academy;15 vezes tinha a mesma sensao de isolamento. 
L ela estava cercada por crianas cujos pais vieram do Vietn, Coria, Mxico, Frana... crianas de todos os tipos, formas e cores... mas ningum exatamente como 
ela. Ningum que fosse meio filipino, meio americano.
- No posso mudar o que meus pais fizeram. - Leanna tenlou falar devagar e com calma, pois estava tremendo por dentro. Kelli sempre a acusava de ser muito sensvel 
aos seus antepassados. Kelli sempre dizia que muitas crianas descendiam de duas
raas e outras - incluindo a prpria Kelli - tinham pais divorciados.
Como que adivinhando seus pensamentos, Miguel ps para trs uma mecha de seu longo cabelo negro. - Ei, Leanna, Sori po. Desculpe. Eu no queria criticar sua famlia.
- Tudo bem - Leanna disse.
A mo de Miguel descansava de novo no carrinho, mas Leanna ainda podia sentir o roar sedoso de seus dedos em seu rosto.
- Ento voc no se interessa pela lngua filipina? E pela comida filipina? - perguntou Miguel.
- Alguns pratos so uma delcia - respondeu Leanna honestamente.
- Eu gosto de adobo. - Mas no acrescentou que os outros pratos que Dora servia, especialmente os que tinham lngua ou rabo de boi, lhe davam enjo.
- O que voc acha de lumpia? - perguntou Miguel. - Vou te comprar algumas, e para seu irmo tambm. Ou vocs so muito americanos para isso?
- No, adoramos lumpia! - exclamou Leanna. Dora fazia sempre lumpia. Eram rolinhos compridos de ovos, recheados com carne de vaca ou de porco. Leanna tinha comido 
vrias no almoo, menos de meia hora antes de encontrar Miguel, mas no ia dizer
nada. Comeria lumpia at estourar, se isso significasse passar mais tempo com esse cara bonito.
- Deixa te ajudar - disse Miguel, pegando na ala do carrinho.
Toby resmungou e Leanna rezou para que no fosse em tagalo. Ela nunca encontraria uma desculpa para explicar como seu irmo de dois anos sabia a lngua melhor que 
ela!
Leanna pegou uma das fatias de papaia que Dora lhe dera para o caso de Toby ficar irritado e a deu para seu meio-irmo. Toby, colocando uma das pontas na boca, comeou 
a morder satisfeito. Leanna esperava que aquela papaia durasse muito tempo.
Eles passaram por vrias barracas de comida, mas Miguel parecia estar procurando uma em especial.
- Ento ... me conte sobre a sua vida nas Filipinas - disse Leanna, tentando romper o breve silncio.
Miguel continuou andando. - Vivamos em um vilarejo agrcola em Luzon, a maior ilha filipina. Meus pais cultivavam arroz e todos ns ajudvamos na colheita. Tnhamos 
um carabao chamado Poni, que eu at montava para ir  escola s vezes.
- Vocs no tinham carro? - perguntou Leanna com curiosidade.
- Ah, tnhamos um jipe. E vivamos numa casa com eletricidade e encanamento, se era isso que voc ia perguntar em seguida.
- Puxa, que alvio - Leanna murmurou. Por um minuto, pensou que Miguel estivesse preso em alguma estranha armadilha do tempo.
- Apesar de que - Miguel continuou ponderadamente - acho que seria incrvel viver numa cabana de bambu na selva.
Imagine s, tomar banho no rio, dormir no cho e catar cocos da rvore. Seria to legal... como acampar o tempo todo. Voc gosta de acampar, Leanna?
- Claro - Leanna sorriu de leve. Os Van Haver tinham ido acampar algumas vezes, mas como o pai e Kelli eram alrgicos a quase tudo, eles haviam ficado numa grande 
motor-home, com camas confortveis e um sistema de filtragem de ar.
- Voc sabia que ainda h alguns pigmeus em reas remotas da floresta tropical? - continuou Miguel. Seus olhos brilhavam e um sorriso iluminava o seu rosto. - Vou 
fazer minha especialidade da faculdade em antropologia, a vou voltar s Filipinas e viver de verdade numa aldeia nativa. Vou comer a comida deles, me juntar a seus 
rituais, fazer tudo o que eles fazem. Vai ser to legal!
- Parece... interessante. - Leanna conseguia imaginar passar frias numa ilha tropical num belo hotel com ar-condicionado. Mas viver na floresta ... de jeito nenhum!
Antroplogos eram pessoas sobre as quais se lia nas aulas de estudos sociais. Velhos. Ningum que ela conhecia na escola queria ser antroplogo. A prpria Leanna 
no sabia ainda o que faria depois da faculdade, mas seria algo fascinante e estimulante. No envolveria beber gua de rios ou contrair alguma doena tropical rara.
Talvez ela continuasse a trabalhar como modelo. Ela e Kelli j haviam aparecido em catlogos e desfiles de moda por todo o norte da Califrnia. Mesmo que sua baixa 
estatura a deixasse limitada a trabalhar sempre como modelo de roupas para pr-adolescentes.
Ser que deveria contar a Miguel sobre seu trabalho como modelo? Os namorados de Kelli sempre achavam legal.
Claro, sem dvida! At parece que um futuro antroplogo ia se impressionar com uma modelo adolescente! Ele a acharia uma grande ftil, isso sim!
Miguel quebrou o silncio com uma risada. - Desculpe. Eu no quis dar uma aula. Nem todo mundo gosta de cultura antiga, como meu irmo vive me lembrando.
- Tudo bem. Eu acho legal - afirmou Leanna, enquanto o seguia pelo meio da multido, admirando seus ombros largos. Leanna pensou que, de alguma forma, l no fundo, 
Miguel e ela eram iguais. Quando Miguel falou que sentia falta das Filipinas, Leanna deixou escapar que ela tambm estava com saudades de sua famlia em Fair Oaks. 
Mas isso era loucura. Miguel era completamente filipino, por dentro e por fora. Ele nunca aceitaria sua famlia americana.
Ela no poderia se apaixonar por Miguel Sarmiento, resolveu Leanna. Eles viviam em mundos completamente diferentes.
Quatro
- Chegamos - avisou Miguel, parando em frente a uma barraca com um toldo listrado vermelho e branco. - A melhor lumpia do festival.
- Como voc sabe que  a melhor? - perguntou Leanna, examinando a mulher com um avental branco atrs do balco. Ela era mais baixa que Leanna e seu cabelo escuro 
tinha mechas brancas.
A mulher riu. - Todo rapaz acha que a comida de sua me  a melhor.
- Mas, no meu caso, quase todos em San Diego concordam comigo. Mame  a chef do Luzon Gardens Restaurant - explicou Miguel. - Ma, esta  Leanna Malig e seu irmo 
Toby.
- Kumust ka? - a senhora Sarmiento deu um largo sorriso e estendeu a mo para Leanna. Leanna a apertou com cuidado, como se estivesse na dvida sobre o que fazer.
- Ma, fale ingls - Miguel sussurrou para a me. - Leanna no entende tagalo.
A me de Miguel encolheu os ombros, parecendo meio decepcionada.
Ento cumprimentou Leanna em ingls e olhou para Toby, que estava dormindo no carrinho, segurando um pedao grudento de papaia. - Que anjinho!
- No quando est acordado. - Leanna sorriu. Apontando para os rolinhos escuros crocantes na panela, perguntou: - Estas lumpias so de carne de vaca ou de porco, 
senhora Sarmiento?
- Fiz das duas. Tenho algumas de cada. - A me de Miguel pegou uma concha de arroz fumegante, colocou num prato de papel, e ento completou com as lumpias quentes. 
Enquanto dava o prato a Leanna, perguntou: - Voc j esteve nas Filipinas?
- No - admitiu Leanna, parecendo desconfortvel de novo. - Mas gostaria de visit-Ia algum dia.
Miguel sentiu pena dela. Era diferente de criticar seu irmo, que tinha virado as costas para a sua herana. Enquanto Ramon escolhera copiar o pior da moda e do 
comportamento americanos, os pais de Leanna no tinham lhe dado escolha.
- Leanna gosta da Califrnia, Ma. Sempre yiveu aqui - ajudou Miguel.
- Vocs adolescentes querem todos ser americanos. - O rosto redondo de sua me pareceu triste e Miguel se perguntou se ela estava pensando em Ramon e Carrie, que 
no haviam aparecido no festival. - Os Estados Unidos so um timo pas, mas vocs
no deveriam esquecer os costumes das Filipinas.
-  por isso que estou aqui - disse Leanna. - Quero aprender.
- Vocs deviam ir  barraca dos livros. Minhas filhas, Sita e Marta, esto trabalhando l agora. Peam uma indicao de algum livro bom de histria e de algumas 
fitas em filipino.
- Isso est parecendo muito a escola, Ma - interrompeu Miguel, lembrando-se da expresso no rosto de Leanna quando ele se empolgou com sua conversa antropolgica. 
No queria que ela achasse que era um completo bolha, que no fazia nada, alm de estudar!
- Ei, vamos assistir  dana da vara - sugeriu Miguel. Meu irmo Noriel e sua esposa vo danar.
Leanna pareceu surpresa. - Quantos filhos a senhora tem? - Sete - respondeu a senhora Sarmiento. - Noriel, Sita e Marta j tm suas prprias famlias, ento os nicos 
em casa so Miguel, Carolina, Ramon e Joy. Eu era a mais velha de treze filhos e ajudei minha me a cuidar dos menores. Fico feliz em ver que voc tambm ajuda sua 
me, Leanna. Quantos irmos voc tem, alm de voc e Toby?
- Bom, eu... eu tenho mais dois irmos - disse Leanna hesitante.
- Toms e ]uan. Os dois mais novos do que eu.
- Voc no tem irms? - perguntou a me de Miguel.
- Ah, no, nenhuma. - Leanna deu uma mordida rpida na lumpia. - Humm, isto est uma delcia!
Miguel no compreendia por que Leanna parecia to nervosa, ele s tinha presentado a sua me, que estava lhe perguntando sobre a sua famlia ... 
Claro. Era isso. Ela provavelmente achava que ainda era muito cedo para conhecer a me dele. No era  toa que ela parecia to envergonhada. Ela deveria estar achando 
que ele estava indo rpido demais.
- Obrigado pela lumpia, Ma - disse Miguel, antes que sua me pudesse fazer mais perguntas a Leanna. - Vou mostrar mais do festival para Leanna.
- Tchau para voc tambm - disse sua me, dando-lhe um beijo rpido no rosto. Ela cumprimentou Leanna com a cabea. - Foi um prazer conhecer voc e Toby.
Miguel segurou a ala do carrinho de Toby, empurrando-o de volta em direo  sada. - Desculpe-me por Ma e pelas suas perguntas - disse a Leanna. - s vezes ela 
 muito curiosa.
- Tudo bem. - Leanna suspirou. - Voc e sua me no fizeram nada de errado. Sou eu. Na verdade,  minha famlia. Eles no so ... no so como a sua.
Miguel parou o carrinho no meio de duas cadeiras de dobrar vazias. Quando ele e Leanna se sentaram, perguntou: - O que voc quer dizer, por que sua famlia no  
como a minha? 
Leanna enrolou uma mecha de seu longo cabelo negro. Bem, sua famlia  to certinha e tradicional. Todos esses irmos e irms ... vocs devem ser muito prximos.
- Acho que sim. - Miguel arrancou um fio solto de seu jeans na altura do joelho. Se Leanna achava que sua famlia era tradicional, ela teria um choque quando visse 
o penteado de Ramon, raspado dos dois lados da cabea e comprido atrs!
- No sou muito chegada no meu pai - admitiu Leanna. - Minha me  legal, mas ela no entende como  difcil para mim. Sou a nica na famlia que no ...
- Que no  o qu? - perguntou Miguel delicadamente.
Leanna fez uma pausa, com um olhar de incerteza no rosto.
- Que no  completamente americanizada. - Leanna jogou o cabelo para trs. - Por exemplo, eles nunca me falaram sobre a dana da vara - Leanna prosseguiu. - O que 
 isso?
-  uma antiga cerimnia realizada em casamentos nas aldeias. Voc est vendo aquelas longas varas de bambu sobre o palco?
- Ah, as varas de limbo. - Leanna assentiu. - Dancei limbo numa festa uma vez. Foi divertido.
Miguel escondeu uma risada. Ela realmente no sabia nada sobre danas filipinas!
- Essas varas so colocadas muito mais perto do cho - explicou. - A noiva e o noivo danam sobre e entre elas, enquanto as pessoas que as seguram pelas pontas tentam 
agarr-los pelos tornozelos e faz-los tropear.
- Nossa, que chato! - exclamou Leanna, ruborizada.
Miguel pensou que ela era uma graa.
- E o que voc acha de jogar bolo na cara da noiva nos casamentos americanos? - perguntou Miguel. - Isso tambm no  muito simptico.
- A noiva e o noivo tm que oferecer bolo um para o outro, - corrigiu Leanna. -  to doce e romntico. S um idiota esfregaria o bolo na cara da sua esposa.
- E jogar o buqu? - retrucou Miguel. - Diga que isso no  sdico. As damas de honra malucas se chutando e se socando entre si por causa de um mao de flores.
- No so apenas flores. Quem pegar o buqu  a prxima a se casar.
- Voc acredita nessa superstio? - perguntou Miguel.
- Bom, eu peguei o buqu no casamento da minha prima h trs anos, e ningum mais que estava naquele casamento se casou at hoje - respondeu Leanna pensativamente. 
- No sou supersticiosa, mas acredito em romance.
Por um momento, seus olhos escuros pareceram sonhadores e distantes. Uma leve brisa desmanchou seu cabelo e delicadas mechas caram em volta de seu rosto delicado.
Quase sem pensar, Miguel esticou a mo e colocou uma mecha sedosa de cabelo atrs da orelha de Leanna. Seus dedos fortes se demoraram na curva do rosto dela.
- Tambm acredito em romance - sussurrou, debruando-se e aproximando-se mais de Leanna, quando ...
- Fiz xixi! Fiz xixi! - gritou Toby. Seus calcanhares chutavam ruidosamente o carrinho.
Miguel gemeu. - Boa hora, garoto. Voc no podia ter esperado mais um minuto?
Leanna ajoelhou-se ao lado do carrinho, com o cabelo caindo-lhe sobre o rosto, enquanto se abaixava para pegar o pacote de fraldas. Pela primeira vez, estava contente 
de ter que trocar Toby. Se o seu meio-irmo no tivesse comeado a gritar, ela poderia ter beijado Miguel! Ela deveria estar envergonhada, pensando em beijar um 
estranho quando j tinha um namorado. Mas no estava. Ela se sentia como se pertencesse a Miguel. No apenas ela quase o beijara, mas tambm quase contara a ele 
sobre seus pais divorciados, e sobre como ela se sentia estranha e desconfortvel sendo a nica pessoa de pele morena numa famlia de americanos loiros.
Leanna acabou de trocar Toby exatamente quando a encenao da cerimnia de casamento comeava no palco. Toby era geralmente tmido com estranhos, mas, quando Miguel 
esticou os braos, o menino subiu para seu colo e aninhou-se com um sorriso.
Leanna descobriu que estava pensando em como seria se fosse ela quem estivesse nos braos de Miguel. Diferente do alto Scott, Miguel tinha a altura perfeita. Se 
ele abrisse os braos, ela poderia confortavelmente se instalar entre eles. Seus lbios estariam na
mesma altura. Ela no teria que ficar na ponta dos ps, e Miguel no teria que se curvar apenas para beij-Ia - como ela e Scott tinham que fazer. Eles podiam apenas 
se inclinar para a frente at que seus lbios se encontrassem.
Leanna olhou de lado para Miguel. Sua cabea estava curvada, enquanto ele falava delicadamente com Toby. Deste ngulo, Leanna reparou que os clios de Miguel eram 
longos e grossOS, como veludo negro. "Se eu tivesse clios assim, nunca mais teria que
usar rmel!"
Conforme o casamento prosseguia no palco, Leanna mergulhou numa fantasia de seu prprio futuro. Como seria se ela e Miguel se casassem? Eles teriam um lindo casamento, 
como aquele, com msica de flauta e elegantes tnicas bordadas. Eles iriam morar ... onde iriam morar? No em Fair Oaks, Califrnia. No havia pigmeus para serem 
estudados. Tambm no nas Filipinas. Ela no moraria numa cabana de bambu de jeito nenhum.
No palco, quatro homens, vestindo o que pareciam saias curtas listradas, seguraram as pontas de dois pares de longas varas de bambu. Eles abriam e fechavam rapidamente 
as varas, enquanto os msicos tocavam flautas, violes e uqueleles. Os noivos descalos pulavam entre e em volta das quatro varas, danando agilmente
fora de alcance, enquanto os homens de saias faziam as varas baterem com um estalo. As varas eram finas, mas, quando os homens as batiam umas contra as outras, o 
estalo era mais alto que a msica de fundo.
- Uau, a dana da vara parece perigosa - disse Leanna.- Aposto que no  difcil quebrar o tornozelo ficando-se preso entre duas dessas varas.
Se havia algo que Leanna no podia suportar era ser pega ... numa fantasia romntica sem futuro. Melhor desistir de Miguel, e dos Malig, antes que eles se tornassem 
uma ameaa  felicidade dela em Fair Oaks. Criar laos significava se colocar numa posio
de sofrimento que doeria muito mais que um golpe no tornozelo.
Cinco
- S mais uma hora- implorou Leanna, entregando Toby para Dora e olhando rapidamente para trs. timo, Miguel no a tinha seguido. Ele a esperava na barraca de refrescos, 
comprando a bebida gelada que ela tinha pedido.
Carlos deu um largo sorriso. Ele parecia to feliz, Leanna sentiu uma pontada de culpa.
- Voc est gostando do festival? - perguntou.
- Oh, sim! - exclamou Leanna. -  fascinante.
Carlos, ainda vestindo a camisa longa e bordada que parecia um vestido, ps os braos ao redor do ombro de Leanna. Ela tentou no se encolher, mas ainda se sentia 
estranha perto dele. Apesar de Carlos ser seu pai biolgico, ele era praticamente um estranho para ela. Um estranho com um vestido! Seu padrasto nunca sairia assim 
em pblico.
E a roupa de Dora! Ela estava linda em sua tnica azul vvido que ia at o joelho e uma blusa de renda por cima. Tinha orqudeas brancas no cabelo e muitas jias 
de prata. Ningum se vestia assim em Fair Oaks.
Dora esboou um sorriso de provocao. - Do que voc gostou mais, Leanna? Da comida, da msica ou daquele garoto bonito com quem eu vi voc conversando?
- De tudo - murmurou Leanna, enrubescendo.
- Venha, Leanna, quero te mostrar a exposio sobre a fundao de Cebu- disse Carlos, com os olhos brilhando por baixo das largas abas de seu chapu de palha.
- Obrigada, mas prefiro andar sozinha. - Leanna olhou atravs de Carlos para lanar um olhar de pedido para sua madrasta.
- Deixe-a ir, Carlos. - Dora sorriu para Leanna, e acrescentou algumas palavras em tagalo para o marido.
- Encontre-nos ao lado do palco em uma hora - disse Carlos.
- Obrigada. - Tentando ignorar as linhas profundas de preocupao que haviam substitudo o sorriso no rosto do pai, Leanna correu de volta para a barraca de refrescos 
onde deixara Miguel. Seu corao deu um sobressalto quando o viu sentado com as pernas cruzadas sobre a grama, segurando dois copos de papel.
- Temos mais uma hora. - disse Leanna, esticando a mo para pegar um copo. Ela deu uma olhada para dentro e depois olhou rapidamente para longe do repugnante emaranhado 
de pedaos de cantapulo boiando na superfcie. - Humm, ponche de cantapulo. Parece gostoso! - mentiu.
- Voc no pode ficar mais tempo? - perguntou Miguel, tomando um longo gole do seu ponche.
Leanna balanou a cabea. Ela tinha de pegar um vo no dia seguinte cedo e nem havia comeado a fazer as malas.
- E se eu prometer te levar para casa? - ofereceu-se Miguel.
Tentando ganhar tempo, Leanna tomou um golinho de ponche. Ela estava tentada a ficar, mas tinha que fazer as malas. Alm disso, uma coisa era ficar com Miguel  
tarde, outra era sair  noite, era muito mais srio.
- Obrigada, mas meus pais no vo me deixar ir para casa de carro com algum que no conhecem. So muito rigorosos.
- Talvez, se eles me conhecerem, te deixem ficar para os fogos de artifcio. Pede a eles- insistiu Miguel.
Leanna balanou a cabea. Apresentar Miguel aos Malig seria suicdio. Ela perceberia imediatamente que Dora era muito jovem para ser me dela, e ento descobriria 
que tudo o que ela tinha contado era mentira.
- No posso. J te disse, meu pai  rigoroso. No vai me deixar voltar para casa de carro com um garoto que ele no conhece. Ele no me deixa sequer sair com meninos. 
- Leanna fez uma pausa, sentindo uma pontada de culpa. Ela no deveria dizer coisas assim sobre o tranqilo Carlos. Se ela tivesse conhecido algum rapaz legal naquele 
vero, Carlos teria deixado que sasse com ele. Mas, por outro lado, Carlos no havia lhe dado nenhuma chance de encontrar algum. At agora, ela passara cada minuto 
com a famlia Malig inteira.
Ela olhou de esguelha para Miguel, com medo de ter ido longe de mais. O que um cara com pais perfeitos pensaria de uma garota que reclamava do pai? Ela esperava 
que ele se levantasse e fosse embora.
Mas Miguel no foi. Debruando-se sobre a faixa de grama que os separava, ele colocou um dedo dobre o queixo dela, levantando seu rosto gentilmente.- Sinto muito 
sobre seu pai. - ele disse. - Mas talvez ele mude de opinio quando souber que eu sou realmente um cara legal.
Perto, uma flauta de bambu tocava, mas Leanna quase no podia ouvir os acordes suaves por causa das batidas de seu corao. De repente, o rosto de Miguel, os lbios 
de Miguel, estavam muito perto dos seus, e ela mergulhava em seus doces olhos escuros.
Leanna sussurou: - Antes de convencer meu pai, voc ter de me convencer.
Ela fechou os olhos, enquanto os dedos firmes, mas delicados de Miguel, se enrolavam nos cabelos dela, puxando-a em sua direo. Seu beijo foi um toque levssimo 
de seus lbios nos dela.
Ela abriu os olhos. Miguel estava sentado com as pernas esticadas na sua frente.
Quando Leanna comeou a se aproximar dele, desdobrou as pernas e acidentalmente derrubou seu copo de ponche de cantalupo.
- Oh! Desculpe! - ela exclamou. A bebida derramada passara perto de seu novo vestido amarelo e cara direto nas calas de Miguel. Do joelho para baixo, suas calas 
jeans estavam manchadas com o espesso lquido laranja.
- Tudo bem - disse Miguel, olhando a sujeira. - Volto j! - Leanna observou enquanto ele se dirigiu  barraca de refrescos para pegar alguns guardanapos.
O encanto se quebrara.

Uma hora depois, Leanna e Miguel estavam sentados em cadeiras dobrveis perto do palco, mascando balas de tamarindo e ouvindo msica. De repente, os Malig apareceram 
na frente deles. Leanna levantou imediatamente da cadeira, precisava se afastar antes que Miguel os conhecesse.
- L est a minha famlia! - Leanna apontava vagamente na direo deles. - Obrigada por tudo, Miguel - disse sorrindo -  melhor eu ir.
Miguel pegou sua mo e a segurou. - Hanggang sa multi - murmurou, olhando nos seus olhos.
- O que significa isso? - perguntou, sentindo o calor de sua mo, a proximidade do seu corpo. Uma parte dela queria se soltar e fugir, outra queria ficar ali para 
sempre.
Miguel sorriu gentilmente. - Se voc conseguir repetir, te conto.
"Agora sei como Cinderela se sentiu", pensou Leanna, dando uma olhada para sua famlia, que se aproximava rapidamente. "Precisando ir embora rapidamente, mas querendo 
muito ficar...".
Ela tentou repetir a frase, tropeado sobre as slabas desconhecidas. Miguel deu uma risadinha. Ela tentou novamente, mais devagar.
- Melhor. - disse Miguel. - Quase perfeito.
- Agora me diga o que significa - insistiu ela.
- De certa forma, significa adeus - explicou Miguel. - Mas, como no quero te dizer adeus, usei uma frase que significa literalmente "At que nos encontremos de 
novo".
Mas ela sabia que nunca se encontrariam de novo. Era muito tarde para contar a verdade a Miguel. Mesmo que ele no se importasse dela morar a centenas de quilmetros, 
Leanna no queria um romance  distncia. No se podia andar de mos dadas com uma carta. No se podia levar um telefone sem fio ao baile.
E Scott? O pobre Scott estava em casa, com saudade dela, esperando por ela. At agora ela no fora realmente desleal, Leanna disse a si mesma. No havia nada de 
errado em olhar para outros garotos, conversar com eles, ou at sonhar com eles. Quanto ao beijo... bem, ela o havia interrompido ao espirrar o ponche de cantapulo 
sobre Miguel. Tudo que ela fizera fora perfeitamente inocente. Mas, se escrevesse para Miguel ou ligasse para ele, ento estaria enganando Scott de fato. E isso 
no seria justo com ningum.
Leanna soltou a mo de Miguel. - Realmente tenho que ir - murmurou.
Miguel enfiou a mo no bolso, tirou um toco de lpis e rabiscou algo num guardanapo de papel. - Aqui est meu telefone, Leanna. Me d o seu?
"Oh, beleza!" Que desculpa ela daria agora? Se ela lhe desse o telefone dos Malig em San Diego, eles lhe contariam que ela morava em Fair Oaks. Se ela lhe desse 
seu telefone de Fair Oaks - ou os Malig o fizessem - ele poderia ligar, mas ela teria que lhe explicar. E qual  a vantagem de ouvir a voz dele se ela no podia 
ver o seu rosto?
- Meus pais no me deixam dar nosso telefone. - mentiu Leanna. - Eles mal me deixam us-lo.
- No acredito que eles sejam to ruins assim - disse Miguel irritado. - Por que voc no me deixa falar com eles?
- No! - Leanna gritou. - Quero dizer, esta no  uma boa hora. Meu pai est com pressa de voltar para casa. Seu programa favorito de televiso vai comear e ele 
fica muito chateado de perd-lo.
- Ele no pode esperar cinco minutos?
- Voc no conhece o meu pai - disse Leanna. Seu rosto corou com as mentiras que estava dizendo, mas no havia outro jeito. - Ele tem um gnio muito difcil. Ele 
tambm guarda ressentimento. Se voc o fizer perder seu programa de TV favorito, ele nunca mais vai deixar eu lhe ver.
Essa era a mais ultrajante mentira que Leanna j contara. Carlos nunca levantara a voz na sua frente e muito menos ficara bravo. Ainda assim, parecia estar funcionando. 
Miguel olhou para Carlos Malig como se ele tivesse chifres e rabo.
- No quero incomod-lo - disse Miguel com cuidado.
- Boa escolha - concordou Leanna, rindo nervosa por dentro. Abaixou a cabea, deixando uma cortina de cabelo esconder seu rosto. - Quando meu pai explode, d medo. 
- Sem dizer mais nada, virou-se e saiu correndo, seu longo cabelo deslizando atrs dela.
- Leanna! - gritou Miguel. - Telefone, ta?
Ela olhou para trs. Por um momento, vendo Miguel parado contra um cenrio de palmeiras e bandeiras Filipinas, ela teve vontade de se jogar nos seus braos fortes 
e confessar tudo.
No, era melhor esquecer Miguel. E se convencer de que tinha sido s uma histria romntica para compartilhar com Kelli quando chegasse em casa.
- Eu ligo - mentiu ela, Ento, correu em direo aos Malig sem olhar de novo para Miguel.
Ela s queria que seu conto de fadas pudesse continuar... e que pudesse terminar com um "felizes para sempre" - em vez de um adeus.
Seis
- Por favor, apertem os seus cintos de segurana. Nosso piloto est comeando o procedimento de descida. Vamos aterrissar em Sacramento em aproximadamente quinze 
minutos.
A voz do comissrio de bordo continuou falando sobre nmeros de portes e vos de conexo, mas Leanna no escutava. J ouvira a parte mais importante. Logo estaria 
em casa!
Leanna fechou a revista de bordo e a colocou atrs do assento a sua frente. Depois de apertar o cinto, olhou pela janela. No se via nada, alm de nuvens e partes 
da asa do avio, mas ela sabia o que estava l embaixo. Sua famlia. Sua me, seu padrasto e Kelli, esperando pelo seu avio.
Scott poderia estar no aeroporto tambm. A menos que tivesse que trabalhar. Assim como Leanna e Kelli, Scott freqentava a Bayside Academy, uma escola particular 
de teatro para crianas. Scott, alto e socivel, queria ser diretor de cinema. Ele quase sempre tinha uma cmera ou camcorder nas mos. No seu tempo livre, ganhava 
dinheiro extra filmando os desfiles de moda da escola.
Fechando os olhos, Leanna pensou em Scott. Alguns dos garotos de Bayside - os esnobes- o achavam estranho, mas Leanna achava Scott diferente, ele era mesmo legal.
Uma vez, eles foram a uma loja supertransada de roupas para comprar fantasias para uma pea da escola e Scott comprou mais roupas para ele que para a pea. s vezes, 
ele vestia calas listradas de algum terno antigo com um colete xadrez de outro. No importava o quo estranha era a combinao, ficava bem em seu corpo longo e 
magro. Seu cabelo loiro liso geralmente caa sobre seus olhos azuis plidos, escondidos atrs dos culos com aro de metal. s vezes, ela o pegava olhando para o 
espao, como se sua mente estivesse em alguma cena distante, que ele esperava capturar em filme.
Leanna sorriu, pensando em como tinha visto Scott na ltima vez. Ele tirava fotos, enquanto ela embarcava no avio para San Diego, em julho. Mas ento sua figura 
tinha ficado apagada, como quando a lente da cmera fica fora de foco. Leanna apertou as plpebras mais forte, tentando focar a imagem. Mas, quando a imagem emergiu, 
o garoto no seu olho da mente no era Scott.
Era Miguel. Leanna lembrava de seus olhos escuros, seu sorriso fcil, o breve e suave toque de seus lbios que prometiam muito mais.
Seus olhos se abriram de repente. "Tenho que para de pensar em Miguel".
Enquanto o avio pousava no aeroporto de Sacramento, Leanna pegou sua mochila do compartimento de bagagem e foi uma das primeiras passageiras a sair do avio procurando 
sua famlia na multido.
No era difcil ach-los. Kelli, que era alta, pulava. Sua camisa rosa-choque e shorts da mesma cor eram to chamativos que ela se destacaria, quer acenasse os braos 
ou no.
Leanna no pde deixar de sorrir. Se pudesse descrever sua irm com uma palavra, esta seria "borbulhante". Kelli daria uma grande lder de torcida. Hoje, ela tinha 
seu longo cabelo loiro platinado preso num rabo, que pulava para cima e para baixo, enquanto tentava chamar a ateno de Leanna.
- Estou te vendo, Kelli! - gritou Leanna. - Calma!
Passando a mochila para o outro ombro, Leanna moveu-se na multido na direo de sua famlia. Antes que pudesse dizer oi, Kelli envolveu Leanna num abrao apertado.
- Estou to feliz por voc estar em casa! Parecia que voc estava muito longe h anos!
- Tambm senti sua falta - disse Leanna, retribuindo o abrao de Kelli. - Tenho tanta coisa para te contar!
- Eu tambm! - exclamou Kelli. - Sabe aquele concurso de beleza no qual me inscrevi? Bom...
- Kelli querida, espere chegarmos no carro - interrompeu gentilmente Alison Van Haver. - Deixe eu e seu pai abraarmos Leanna.
Kelli se afastou e Leanna abraou sua me pela primeira vez em dois longos meses. A senhora Van Haver era alta e tinha cabelo loiro-claro comprido. Ela vestia calas 
simples de algodo e uma camiseta lisa que combinava com seus olhos azuis acinzentados.
- Voc parece que cresceu - disse a senhora Van Haver, abraando Leanna com fora. - Quase no reconheci minha garotinha.
Leanna estranhou o jeito emocionado de sua me. Afinal, ela s tinha ficado longe dois meses! Dando um passo para trs, Leanna levantou o queixo e endireitou os 
ombros. - Voc acha mesmo que cresci? - perguntou esperanosa.
O padrasto de Leanna riu. - No, querida, voc ainda  a mesma anzinha.
- Papai! - gritou Leanna indignada. Ele no a chamava por aquele apelido vergonhoso h anos!
O senhor Van Haver abaixou-se para beijar o rosto de Leanna, depois colocou sua mochila sobre seu ombro.
- Cuidado, est pesada. - avisou Leanna.
Seu padrasto era alto e magro. Entre seu trabalho como bibliotecrio e suas fortes alergias, ele no saa muito para se axercitar.
- Cad Scott? - perguntou Leanna a Kelli, enquanto subiam as escadas rolantes para pegar a bagagem. O senhor e a senhora Van Haver estavam alguns degraus atrs das 
meninas.
Kelli encolheu os ombros. - Voc conhece Scott. Estava pronto para vir, quando seu amigo - aquele cara bem velho, qual  o nome dele?
- Senhor Mancuso? - perguntou Leanna. Aos noventa e trs anos, o senhor Mancuso era o nico amigo de Scott que se qualificava como "realmente velho". Havia sido 
cameraman nos primeiros anos de Hollywood e Scott estava fazendo um documentrio sobre sua vida.
- , Mancuso. Bom, ele se lembrou de algo e quis contar a Scott. Ento, Scott correu para gravar antes que o senhor Mancuso esquecesse de novo- explicou Kelli. - 
Scott pediu para te pedir desculpas e disse que liga  noite.
Leanna suspirou. - No me surpreende. Quando Scott est filmando algo, ele mal se lembra de comer. Ento, imagino que esperar sua namorada chegar ao aeroporto  
querer muito.
- Voc est maluca? - perguntou Kelli, enquanto elas desciam a escada rolante.
- No, no totalmente - disse Leanna.

Durante os quarenta e cinco minutos de carro para Fair Oaks, Leanna contou  sua famlia sobre Carlos e os meninos, a comida de Dora, e a viagem deles para a Disneylndia. 
A nica coisa que ela no mencionou foi Miguel. Ela mal podia esperar para estar sozinha com Kelli e contar-lhe todos os detalhes picantes.
A oportunidade de Leanna chegou depois do almoo, quando subiu para seu quarto para desfazer as malas. Kelli a seguiu, oferecendo-se para ajudar. Leanna apenas assentiu 
com a cabea. Ela j vira a maneira como Kelli "arrumava as malas" depois das frias. Geralmente enfiava tudo dentro da gaveta mais prxima e o que no coubesse 
era jogado no cho do guarda-roupas.
Kelli foi at seu quarto e voltou com um vidrinho de esmalte rosa-choque. Ela chutou as sandlias para longe e pulou na cama de Leanna.
- Ok, j ouvimos a verso livre, agora me conte a parte boa. - Kelli abriu o vidrinho de esmalte e tirou o pincel. - Voc conheceu caras interessantes em San Diego?
- S um, realmente especial. - Leanna abriu o zper de sua mochila e comeou a guardas as coisas nas gavetas. - Ele  to bonito...
- Voc tirou uma foto? - perguntou Kelli, pintando o dedo esquerdo de rosa-choque.
Leanna balanou a cabea. - No. Conheci ele ontem e j no tinha mais filmes, acabei com todos na Disneylndia. Carlos e Dora me levaram ao Festival Filipino. - 
Leanna virou os olhos.- Esperavam que fosse uma grande surpresa, me ensinar coisas sobre as Filipinas. Como se Carlos no estivesse me enfiando isso goela a baixo 
durante todo o vero!
Kelli assentiu. - Recebi sua carta. Toda aquela comida horrvel que eles te faziam comer! Como voc agentou?
- No era totalmente ruim - disse Leanna. Ela escrevera a Kelli depois que Dora servira algo chamado dinuguan, parecia chocolate, mas era refogado com sangue de 
porco. Ela comeu umas colheradas antes que Carlos lhe explicasse o que era. Ela estava brava com os Malig e sua carta para Kelli fizera o dinuguan parece muito pior 
do que era na verdade.
- Bom, de qualquer forma, acabei gostando do festival. Olha o que Carlos me deu. - Leanna abriu o zper da sua sacola de roupas e tirou de dentro seu vestido amarelo.
- Nossa,  maravilhoso. Olhe que mangas lindas! - Kelli sentiu o tecido de uma das mangas entre seus dedos. - Que material  esse? No parece algodo.
- Fibra de abacaxi - disse Leanna. - Legal, n?
- , sim - concordou Kelli. - Mas tem uma mancha embaixo.
Leanna levantou a saia do vestido e viu uma mancha verde na parte de trs.
- Oh, no. Espero que saia quando lavar - disse. - Deve ter acontecido quando eu e Miguel sentamos na grama.
- Ha! Ele  o cara bonito que voc conheceu? - perguntou Kelli.
Leanna assentiu. - Sim. Miguel e eu passeamos juntos pelo festival. At assistimos a encenao de um casamento filipino.
- Soa romntico. - Kelli recostou-se sobre o travesseiro de Leanna, fechou o vidrinho de esmalte e o balanou com sua mo direita. - Foi por isso que voc rolou 
na grama com ele?
- Ns no ficamos rolando! S estvamos sentados. - O calor subiu pelo rosto de Leanna quando ela se lembrou que Miguel havia feito mais do que sentar. - Ok, ele 
me beijou - ela deixou escapar, apesar de Kelli no ter dito mais nenhuma palavra.
- Parece srio. - Kelli assoprou suas unhas midas. - Ento... voc vai v-lo de novo?
- Como? - perguntou Leanna. Ela enfiou algumas camisetas numa gaveta e a bateu com fora. - Miguel no vai esperar at o Dia de Ao de Graas ou at o Natal ou 
at quando eu v visitar Carlos de novo. Apesar de que, se eu vivesse l o tempo inteiro...
- De jeito nenhum! - gritou Kelli. - Voc no pode fazer isso!
- No estou planejando fazer isso. - Leanna voltou-se surpresa para Kelli. - Eu s disse que se eu morasse em San Diego. Miguel  to atraente. Mas eu moro aqui, 
e no posso esquecer que o Scott existe! - explicou.
- Isso  verdade! E pense em tudo o que voc perderia se se mudasse para a casa do seu pai - disse Kelli. - Voc j perdeu o Concurso Miss Cocoa-Tropic Tan. Eu perdi 
o primeiro lugar, mas voc poderia ter ganhado. Ter um bronzeado que dura o ano inteiro  uma grande vantagem sobre aquelas concorrentes com bronzeamento artificial.
- Oh, eu tinha esquecido completamente esse concurso. - Leanna no conseguia se ver como rainha de um concurso de beleza, mas tambm nunca imaginava ser modelo at 
Kelli convenc-la a matricular-se na Bayside em vez de numa escola pblica. Participar do concurso com Kelli teria sido divertido, mas visitar Carlos tinha atrapalhado 
esse programa.
- Voc tinha que ter visto a menina que ganhou. - Kelli prosseguiu. - Ela estava com um vestido dourado agarrado com tiras de diamantes falsos. Voc sabe aquele 
vestido de tafet branco que eu comprei? Grande erro! Eu deveria ter vestido alguma coisa com lantejoulas. Eu juro, aqueles juzes s escolheram o vestido mais elegante, 
sem nem prestar ateno a quem estava dentro dele. Muitas outras concorrentes tambm acharam a mesma coisa. Voc quer ver a fita? Tenho uma cpia l embaixo.
- Mas eu nem acabei de arrumar as coisas - reclamou Leanna, curiosa em saber por que Kelli estava to interessada no concurso de repente. No era o hbito de Kelli 
comear a falar dela mesma quando estavam falando de algum gato.
- Eu te ajudo a arrumar as coisas mais tarde. - Kelli pulou da cama, com cuidado para no borrar suas unhas midas. - Voc tem que ver o filme: no vai acreditar 
em alguns dos mais.
Leanna deixou Kelli arrast-la para fora do quarto, ainda falando sobre as roupas e os penteados das outras concorrentes.
Kelli ligou o videocassete da sala de estar e elas se instalaram no sof para assistir ao filme. Ali estava Kelli entrando na passarela, seu cabelo loiro arranjado 
sobre a cabea em elaborados cachos. Leanna reconheceu suas amigas, Wendy e DeShaun. Ela quase no reconheceu Sara. Em junho, Sara tinha cabelo castanho e comprido.
- Quando Sara virou ruiva? - perguntou Leanna, olhando para os cachos curtos de sua amiga.
- Logo que voc viajou - respondeu Kelli. - Voc perdeu muitas coisas nesse vero.
- Ento perdi o novo penteado da Sara. Posso v-lo amanh.
- No, no pode - disse Kelli. - Na semana passada, ela raspou a cabea.
Leanna encarou a tela. No  que o cabelo de Sara fosse muito importante, nem mesmo o concurso de beleza.  que a vida em Fair Oaks tinha continuado sem ela.
O tempo tambm no pararia para Miguel. Daqui a meses, se ele se lembrasse dela, ela seria a garota que mentira para ele, que prometera telefonar e nunca o fizera.
Se ela pelo menos pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo! Mas ela tinha que escolher. S havia lugar para um rapaz de cada vez no corao de Leanna.
- Leanna! - a voz de Kelli interrompeu seus pensamentos. - Eu perguntei se posso pegar sua blusa regata vermelha emprestada amanh!
Leanna piscou. - Claro. Posso ver o resto do filme mais tarde?
- Aonde voc vai? - perguntou Kelli, enquanto Leanna levantava do sof.
- Vou ligar para o Scott - disse Leanna.
Fazia muito tempo que no falava com seu namorado. Leanna esperava que a voz familiar de Scott a ajudasse a esquecer a outra voz delicada que repetia, em sua cabea, 
em tagalo, "at que nos encontremos de novo".
Sete
- Claro que quero te ver de novo. - Leanna encostou na parede da cozinha, enrolando o fio branco do telefone em volta do brao. - Mas, Carlos ...
- Leanna - interrompeu-a delicadamente seu pai. - No quero ser chato, mas significaria muito para mim se voc me chamasse de Pa. Ou Papa. Chamar os pais pelo nome 
 desrespeitoso. No ...
- Eu sei, eu sei - interrompeu Leanna. - No  o costume filipino. - Leanna sabia que os filhos nas Filipinas chamavam os pais de "Ma" e "Pa", mas ela no podia 
fazer isso, era muito caipira. "Papa" ento era ainda pior. To infantil!
- Ento ... voc vem nos visitar no Dia de Ao de Graas? - perguntou Carlos.
Kelli apareceu na porta da cozinha, usando um vestido de l preto de mangas compridas e botas pretas de camura. Suas roupas eram muito pesadas para meados de outono, 
mas Leanna sabia que Kelli vestiria at um casaco de peles se ela achasse que isso agradaria o rapaz com quem ia sair, Glenn Garrick.
- O Dia de Ao de Graas no  uma boa poca - disse Leanna. - A vov Van Haver vai dar uma festa. Toda a famlia tem que ir, querendo ou no.
Da porta, Kelli gesticulava freneticamente para Leanna desligar.
Leanna ps a mo sobre o fone. - Cinco minutos - disse a Kelli.
- Glenn disse que vamos chegar atrasados para o filme - Kelli zombou.
- Cinco minutos - repetiu Leanna, levantando os cinco dedos de sua mo esquerda.
Kelli saiu, e Leanna se concentrou no que Carlos dizia.
- Entendo que os Van Haver sejam importantes. - Carlos parecia meio triste. - Mas sou o seu pai. Gostaria de ser parte de sua vida tambm.
- Eu gostaria de ir - disse Leanna. - Mas no posso decepcionar a vov.
- Eque tal outro fim de semana? No precisa ser um feriado.
- Tenho que perguntar para a mame - disse Leanna. No que sua me fosse se opor, mas Carlos no precisava saber disso. Usar a me como desculpa era mais fcil do 
que explicar como ela se sentia dividida entre suas duas famlias.
- O.k., me ligue depois que falar com ela - disse Carlos.- Os meninos sentem muito a sua falta. Voc tem praticado tagalo?
As fitas de tagalo que Carlos lhe dera estavam em seu quarto, mas ela nem se lembrava onde. Ela no as escutara nem uma vez sequer.
- Tenho que desligar, Carlos - disse Leanna. - Meus amigos esto esperando.
- Entendo - respondeu Carlos.
Desligando o telefone, Leanna pegou sua bolsa pendurada numa cadeira e se dirigiu para a sala de estar. Scott estava l, esperando com Kelli e Glenn.
Quando Leanna atravessou a porta, Glenn estava falando de seu assunto predileto: ele mesmo.
- Eu devia ter estado naquele comercial de jeans - disse Glenn a Kelli, que estava sentada ao lado dele no sof de dois lugares. Ela o olhava com adorao, como 
um bichinho de estimao.
- Mas eu nem consegui fazer o teste. Aposto que meu agente deve estar se lamentando. Ele mandou Eddie Alvarez no meu lugar! Ele errou as falas no sei quantas vezes 
e acabou escutando o famoso "no nos ligue, ns ligamos para voc". Se aquele agente tivesse um pouco de miolo, teria me indicado.
"E, se tem alguma coisa em que Glenn  um especialista,  em querer parecer sempre o melhor", pensou Leanna. Ele era a estrela masculina de modelos da Bayside Academy 
e tratava as garotas
da Bayside como se fossem seu harm pessoal.
Naquela noite, Glenn vestia uma camiseta verde oliva e uma jaqueta cqui do exrcito. Suas calas de camuflagem estavam enfiadas dentro de coturnos. Em qualquer 
outro, a roupa pareceria informal. Mas as botas de Glenn estavam to engraxadas a ponto de brilharem e suas roupas estavam superbem passadas. Glenn se gabava de 
que no fazia nenhum trabalho de casa. Sua me fazia tudo para ele. Leanna se perguntou se ela tambm penteava as duas ondas impecveis do cabelo castanho claro 
de Glenn.
- Oi, Leanna. - Glenn interrompeu sua histria para dar um sorriso que teria derretido a maioria das garotas de Bayside. Leanna at poderia admirar o sorriso de 
Glenn tambm, se ele notivesse contado a todo o mundo repetidamente quanto dinheiro seus pais haviam gastado com seu tratamento ortodntico.
- Voc est bonita - continuou Glenn. Seus olhos percorreram as leggings pretas e a blusa com uma estampa tropical colorida de Leanna. - Mas gosto de minhas mulheres 
de saia.
- Que bom que no sou sua mulher - retrucou Leanna, jlamentando esse programa antes mesmo de ter sado de casa!
Kelli, no escondendo um certo nervosismo, olhou de Glenn para Leanna e disse: - Vamos, seno perderemos o filme.
Ao som da palavra "filme", Scott levantou rpido a cabea. Pela primeira vez, parecia perceber que no estava sozinho na sala.
- Ei,  mesmo,  melhor irmos andando. - Scott se levantou, suas longas pernas se desdobrando como uma escada. Ele vestia uma de suas roupas transadas, calas largas 
pretas pregueadas
com uma camisa de seda cinza e um colete com broches. As roupas em si eram mais elegantes que as de Glenn, mas estavam informalmente amassadas, com as mangas puxadas 
acima dos cotovelos de Scott.
Enquanto Kelli e Glenn se dirigiram para a van de Glenn, Leanna pegou o brao de Scott e o segurou para trs. Em voz baixa, ela perguntou: - Voc ouviu o que aquele 
bolha me disse?
Scott piscou. - Claro que no. Nunca presto ateno no Glenn.
- Ele disse que gosta que suas mulheres vistam saias! - Leanna disse. - E olhou para mim como se esperasse que eu corresse para me trocar!
- Por que fazer tanto carnaval por isso? - perguntou Scott suavemente. - Glenn  inofensivo. Nem d bola.
Leanna encolheu os ombros e seguiu Scott para a van de Glenn. Scott tinha razo. No fazia sentido comear uma discusso por causa desse comentrio idiota de Glenn.
Quando chegaram ao Cinedome, Glenn insistiu em rodar dentro do estacionamento para encontrar o local mais seguro para estacionar sua van personalizada. Quando finalmente 
chegaram  bilheteria, no havia mais ingressos.
-  tudo sua culpa, Leanna - disse Glenn, - voc ficou muito tempo no telefone.
- Bem, me desculpe, Sua Majestade! - respondeu Leanna cansada daqueles comentrios. - No fui eu que fiquei rodando no estacionamento a noite inteira.
- Fiquem frios, vocs dois - disse Scott, se colocando entre Glenn e Leanna. - H outros cinemas aqui. Vamos escolher outro filme.
Glenn lanou um rpido olhar para os anncios dos filmes. - Voc deve estar brincando. So todos filmes para babacas, exceto Hard Justce.
- De jeito nenhum! - explodiu Leanna. - No vou assistir a um macho idiota explodindo prdios por duas horas.
Scott apertou-lhe a mo. No porque a amasse, mas porque queria que se calasse.
- Tenho certeza de que podemos achar algo de que todos gostemos - disse Scott calmamente. - Que tal Fallng for You?  uma comdia romntica, estreando.
- Esses filmes piegas so para garotas - interrompeu Glenn. - Ou assistimos Hard Justce ou vou embora.
Kelli aproximando-se de Leanna cochichou: - Tenta entrar num acordo com Glenn. Por favor. - Numa voz mais alta, ela acrescentou: - Hard Justce parece timo, Glenn.
Scott tentou segurar a mo de Leanna, enquanto eles atravessavam o saguo, mas ela a puxou, brava. Leanna estava brava com todos: Scott, Glenn, Kelli, e at com 
ela mesma. Agora teria que assistir a um filme barulhento e violento sem vontade. Ela e Scott deveriam ter comprado ingressos para Fallng for You, e ter deixado 
Glenn e Kelli assistirem a Hard Justce. Mas agora era tarde demais.
Aps passarem pelo porteiro que cortou os ingressos, Glenn e Kelli foram direto ao bar. Ao sentir o cheiro de pipoca amanteigada, o humor de Leanna melhorou um pouco. 
Talvez a noite no fosse um desastre total. Um pouco de pipoca amanteigada, uma limonada gelada e um saquinho de Gummy Bears poderiam melhorar seu astral.
- Voc quer pipoca? - perguntou Scott como se tivesse lido seus pensamentos.
Leanna ia aceitar, mas ficou sem fala quando viu o rapaz atrs da mquina de pipoca. Um cabelo negro liso emoldurava uma face de menino com olhos escuros amendoados. 
Assim como os outros funcionrios do cinema, ele vestia um colete vermelho sem graa e uma gravata-borboleta boba com calas compridas brancas de polister bem feias. 
Mas, at de uniforme, Leanna observou seus incrveis braos musculosos, suas mos fortes e seu peito largo.
Leanna enxugou as palmas midas de suas mos em suas leggings escuras. Ela ouvia seu corao bater to forte que tinha certeza de que todos podiam escutar.
"Miguel!" pensou. "Tem que ser ele!" Mas como? Miguel mora em San Diego. Como pode estar trabalhando num cinema a centenas de quilmetros de casa?
- Acho que fiz uma pergunta idiota - disse Scott, rindo. Claro que voc quer pipoca.
Ele se virou para seguir Kelli e Glenn at o balco, mas Leanna apertou-lhe o brao. - No, obrigada! No quero nada.
Scott parecia preocupado. - Por qu? Voc est doente? Voc nunca assiste a um filme sem comer uma tonelada de bobagens.
-  ruim para a minha pele. Tenho um desfile de moda logo - disse Leanna rapidamente, escondendo-se atrs de Scott. Ela estava aliviada de poder se esconder atrs 
dos seus ombros. Pela primeira vez, estava feliz por ser baixinha. Se o rapaz das pipocas fosse realmente Miguel, ela no queria que ele a visse com Scott!
- Mas voc nunca tem espinhas - disse Scott.
Leanna fingiu uma risada. - Sempre h uma primeira vez. Por que arriscar? - Sentindo que estava chamando muito a ateno com sua camisa florida, Leanna escondeu-se 
ainda mais atrs de Scott.
- o que est acontecendo de verdade, Leanna? - Scott perguntou com a voz mais baixa.
Ela tinha que sair dali - rpido! Antes que seus joelhos se dobrassem ou que seu corao pulasse para fora do peito. Antes que fizesse uma loucura, como correr at 
o rapaz das pipocas e abra-lo. Ver Miguel de novo - se  que era realmente Miguel - trouxe de volta toda a excitao que ela sentira durante o primeiro tmido 
beijo deles. Mas e se Miguel descobrisse tudo sobre as mentiras dela ... sobre Scott?Ela morreria!
- S no estou com fome - respondeu. - No  nada. Vamos, vamos entrar antes que todos os bons lugares sejam ocupados.
- Mas eu achei que voc no dava a mnima para Hard Justice. - Aparentemente confuso, Scott deixou Leanna arrast-lo para a sala escura.
- Se tenho que assistir a um filme ruim, no quero ficar sentada atrs de algum enorme na minha frente - respondeu Leanna. Ela andou rpido pela sala de cinema, 
contente por estar suficientemente escuro para esconder o rubor em sua face. Se estivesse vermelha como sentia, ela devia estar parecendo um carro de bombeiros.
Ela sabia que estava sendo boba. Primeiro, no podia ser Miguel. E, se por algum milagre, fosse, a estas alturas ele j deveria t-la esquecido.
"S tenho que descobrir se  ele", pensou Leanna, enquanto ela e Scott se sentavam no fundo da sala.
Scott tocou sua mo e ela quase gritou. - O que h com voc hoje? - perguntou. - Primeiro voc fica muito quieta, depois pula trs metros. O que est havendo?
A preocupao de Scott fez Leanna sentir-se ainda pior. Como ela podia at pensar em outro cara, se Scott era to doce?
- Estou bem - disse.
Scott comeou a dizer algo, mas ento Glenn e Kelli apareceram com um enorme pacote de pipocas. Leanna, que estava sentada ao lado do corredor, levantou-se para 
deix-los passar. A pipoca cheirava to bem que a boca de Leanna encheu-se de saliva.
- Quer um pouco? - perguntou Kelli, oferecendo o pacote a Leanna.
- No, obrigada. - Leanna no podia aceitar, depois de fazer tanta histria para recusar-se a comprar pipoca.
Glenn sentou-se ao lado de Scott e comeou a falar num tom suficientemente alto para que Leanna pudesse ouvir. - Leanna no quer pipoca? Posso te emprestar dinheiro 
se voc no tiver,
cara.
Leanna no conseguiu ouvir a resposta de Scott, mas ento Glenn falou de novo, mais alto ainda. - De jeito nenhum. Escuta, sei como fazer uma garota feliz, sempre 
dou o que elas querem.
Leanna olhou Glenn com repulsa. No podia acreditar no que estava ouvindo. E ento, para completar, Glenn ousou piscar para ela, enquanto as luzes se apagavam e 
a sala ficava escura.
Glenn a estava paquerando!
Um momento depois, uma confuso barulhenta de soldados, tanques e jatos de sangue explodiu na tela. Quando Leanna estava comeando a se acostumar com o barulho, 
um atrasado passou correndo pelo corredor e se sentou no assento bem na frente dela.
Uma mulher alta e loira, com um penteado de quase um metro de altura.
Leanna gemeu. timo. O cabelo de algodo-doce na frente dela impedia-lhe de ver a parte mais baixa da tela.
A moa deu uma olhada para Scott. Filmes violentos de ao no eram os seus favoritos, mas ele estava prestando muita ateno, como fazia com qualquer filme a que 
assistia. Gostava de estudar os efeitos especiais e os ngulos da cmera. Leanna sabia que s um terremoto poderia chamar a sua ateno antes dos crditos finais.
"Eu devia ir dar um passeio no saguo", pensou Leanna. No estaria fazendo nada errado s de olhar o rapaz da pipoca. Ela no teria nem que falar com ele. S uma 
olhada rpida para se certificar de que no era Miguel. Ento poderia relaxar e aproveitar o resto da noite.
Curvando-se, Leanna cochichou no ouvido de Scott:- Vou ao banheiro. Volto logo.
- Humm-humm - murmurou Scott. Seus olhos estavam grudados na tela, enquanto um homem sem camisa com muitas tatuagens mirava um lana-chamas de dentro de um jipe.
Leanna apressou-se pelo corredor. Enquanto o filme continuasse, Scott no perceberia se ela sumisse por cinco minutos ou meia hora.
Demoraria s um segundo para ir at o bar e confirmar se era ou no Miguel.
Leanna fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes, do jeito que sua professora de passarela a ensinara para relaxar. Quando reabriu os olhos, sentiu-se um pouco 
mais calma.
Mas, ao aproximar-se do bar, mal pde respirar. Entretanto, ningum parecia reparar nisso. Os trs funcionrios de coletes vermelhos estavam ocupados. Um rapaz loiro 
gorducho estava registrando um pedido no caixa. Uma garota ruiva estava entregando um sorvete para um menininho. E um terceiro funcionrio estava curvado sobre o 
balco. Seu cabelo negro brilhante e seus braos musculosos eram os de Miguel, sem sombra de dvida. 
Ele no olhou para cima. Com as sobrancelhas franzidas, esfregava o balco sujo com uma esponja.
"Corra", pensou Leanna. "Corra rpido para dentro, antes que ele a veja!"
- Oi, Miguel.
A cabea de Miguel voltou-se rapidamente ao som de uma voz feminina estranhamente familiar. Ele derrubou a esponja no cho ao ver a delicada garota com o negro cabelo 
sedoso solto parada perto do balco.
Leanna! Ela continuava to bonita quanto naquele dia de agosto no Festival Filipino ... e nas outras muitas vezes, nos seus sonhos.
Leanna Malig. Ele nunca esquecera o seu nome. E, agora, l estava ela, parada no balco, como um anjo sado do nada. Naquele segundo, ele lembrou o beijo mgico 
deles. O toque dos lbios
dela enviando uma onda morna por todo o seu corpo. Miguel pensara em Leanna com freqncia, mas quando sua famlia se mudara para Sacramento ele assumira que nunca 
mais a veria denovo.
-Leanna!
- Voc... voc derrubou a sua esponja. - Leanna agachou se para peg-la e entregou-a a Miguel.
Quando suas mos se tocaram, Miguel sentiu uma fasca de eletricidade entre eles. Era Leanna realmente quem estava ali. No era um sonho. - O que voc est fazendo 
aqui? - ele perguntou.
Leanna no soltou a esponja. - Estou ... estou assistindo a um filme. E voc?
- Estou limpando o balco - respondeu Miguel, sorrindo amarelo. Ele tirou a esponja da mo dela e a apertou de novo. Era muito melhor sem a esponja molhada entre 
eles. - No posso
acreditar que voc est aqui. Tanta coisa aconteceu desde que te vi no festival. Quando te dei meu telefone, no tinha a menor idia de que iria me mudar, e ...
- Miguel - uma voz spera vinda de trs o interrompeu esta garota vai comprar alguma coisa?
Miguel no precisou se virar. Ele sabia exatamente quem estava falando assim e podia ver o olhar pretensioso de seu rosto. Sua colega Danette no gostava dele e 
sempre tentava colocar Miguel em dificuldades.
Ele rapidamente soltou a mo de Leanna. - Eu estava justamente perguntando - ele disse. - Senhorita, posso fazer o seu pedido?
- Eu atendo - disse Danette. - Voc vai passar um pano naquele lquido derramado na sala de trs.
Miguel engoliu sua resposta. O gerente do cinema, o senhor EsquiveI, tinha deixado Danette como encarregada naquela noite. 
- Estou indo - disse Miguel com seu tom mais educado e voltando-se para Leanna. Disse: - No posso conversar agora.
- Vamos logo! - gritou Danette. - Conversar com amigos na hora do trabalho  contra o regulamento.
- O.k., o.k. - Miguel curvou-se na direo de Leanna e sussurrou: - Eu saio do trabalho  meia-noite. Voc pode me encontrar l fora?
Leanna pareceu hesitar e Miguel segurou a respirao. Finalmente, ela disse: - Claro. Estarei aqui.
- Promete? - A palavra escapou e Miguel queria poder apag-la, no queria que Leanna achasse que ele estava desesperado.
Mas os lbios perfeitos de Leanna se curvaram num sorriso. Ento, ela murmurou: - Prometo.
Danette empurrou um esfrego para Miguel. - Vai trabalhar namorador! "
Miguel assobiava enquanto se dirigia lepidamente para o depsito na sala de trs. Ele mal percebeu a risada maldosa de Tom e o olhar duro de Danette. Pela segunda 
vez, contra todas as probabilidades,
o destino lhe mandara a garota dos seus sonhos. E, desta vez, ele no iria deix-la escapar.
Oito
- No acredito que voc vai sair escondida. - Kelli se colocou na frente da porta do quarto de Leanna e cruzou os braos. Ela at poderia parecer brava, se no estivesse 
vestindo um babydoll com desenhos de ursinhos.
- Fique quieta! Voc vai acordar a mame e o papai. - Leanna sentou pesadamente em sua cama e olhou o relgio. Tinha que sair em cinco minutos, se quisesse cumprir 
sua promessa.
Kelli se encostou na porta fechada. - Voc sabe que no podemos sair depois da meia-noite. E, se o papai descobrir que voc pegou o carro sem permisso, vai ficar 
proibida de sair .at ser muito velha para namorar.
- Ele no vai descobrir. Eu j volto. - Leanna olhou suplicantemente para a meia-irm. - Eu acordaria o papai e pediria permisso, mas estou com muita pressa.
- Claro, voc sabe que ele diria no - retrucou Kelli. - Voc j teve um encontro hoje. Duvido que o papai te deixasse ter outro.
- Isso no  um encontro - respondeu rpido Leanna. - S vou conversar com ele.
- E como voc acha que vai se sentir o Scott quando souber que voc foi falar com esse cara? - inquiriu Kelli.
- Desde quando voc tem problemas em sair com dois rapazes ao mesmo tempo?
O rosto de Kelli ficou vermelho. - No estamos falando de mim - disse, jogando para trs seu cabelo loiro prateado. - E, de qualquer forma, nenhum desses caras significou 
alguma coisa para mim.
- Nem mesmo o Glenn? - perguntou Leanna delicadamente.
- Glenn se revelou o pior bolha de todos. - Kelli sentou-se, ainda mantendo a porta fechada. - Eu o vi te paquerando. Que nojento!
Kelli fungou. Leanna pegou uma caixa de lenos de papel da cmoda e deu para ela.
- Obrigada. - Kelli enxugou o nariz e respirou profundamente. - Escute, Leanna, voc no sabe como tem sorte de ter algum como o Scott. Ele  o nico garoto de 
Bayside que no pensa s nele. Ele realmente liga para voc. Por que voc arriscaria isso por um cara que mal conhece?
- Talvez voc esteja certa - disse Leanna devagar, e se sentou no cho perto da meia-irm. Scott era legal e ela no queria mago-lo. Mas ela no sentia o mesmo 
frio no estmago quando via Scott que sentia quando estava com Miguel.
- Voc disse que Miguel  das Filipinas - Kelli continuou.
- Voc no est se metendo num grande problema? Pense s na mame e no Carlos. Ou papai e Leslie.
Leslie era a me biolgica de Kelli. Como sempre, quando Kelli dizia "Leslie", ela crispava os lbios como se dissesse "monstro" - ou "bruxa m". Diferentemente 
de Carlos Malig, Leslie Van Haver no telefonava nem escrevia para sua filha. Leslie deixara Kelli aos cinco meses sozinha com o pai. E esta fora a ltima vez que 
Kelli a vira.
- Se a mame e o papai tivessem se casado logo depois de terminar o colgio, em vez de irem para faculdades diferentes! Kelli suspirou. Ela jogou o leno de papel 
usado na lata de lixo. - Teria sido to perfeito! Papai no teria encontrado Leslie, e mame no teria encontrado Carlos.
- E nenhuma de ns teria nascido - Leanna salientou.
-  verdade, mas imagine o quanto mais felizes teriam sido mame e papai. Voc sabe por que os primeiros casamentos deles no deram certo! - Kelli a relembrou. - 
As diferenas entre eles
eram mais fortes do que o amor.
- Mas ns no somos nossos pais - disse Leanna, enrolando uma mecha de cabelo num dedo.
(1 - Certo! - Kelli levantou-se de um pulo, acenando os braos com excitao. - No temos que repetir os erros de nossos pais. Sei que Miguel parece excitante e 
diferente, mas ele  diferente
demais. Voc vai se dar melhor com algum como Scott.
Leanna acabou rindo. - Acalme-se, Kelli! Eu s vou ver Miguel, no me casar com ele.
Kelli descruzou as pernas e levantou-se do cho. - Sim, mas por que voc vai encontr-lo? - Kelli apertou os olhos. - Voc vai contar a Miguel sobre Scott?
- No sei. - Leanna suspirou.
Kelli saiu de frente da porta. - Voc pode dizer a ele que aquele beijo em San Diego foi s uma coisa de frias de vero.
- Vou pensar a respeito - prometeu Leanna. A verdade era que ela no tinha a menor idia do que diria a Miguel. S sabia que tinha que v-lo de novo.
- Bom, no demore - pediu Kelli enquanto Leanna abria a porta do quarto. - E tenha cuidado com o carro do papai.
Leanna desceu as escadas escuras nas pontas dos ps e entrou na cozinha. Sem acender a luz, pegou as chaves do carro do pai no gancho perto do telefone. A me sempre 
mantinha suas
chaves na bolsa, mas o pai deixava as suas onde qualquer um pudesse peg-las. s vezes ele tambm deixava dinheiro em qualquer lugar. Tinha a teoria de que se se 
mostrasse aos filhos que se tinha confiana neles, eles viveriam de acordo com as suas expectativas.
Leanna odiava trair sua confiana, mas no havia outro jeito. Como Kelli lembrara, pedir para usar o carro estava fora de questo. O pai certamente no deixaria 
e provavelmente acrescentaria que, se Miguel quisesse v-Ia, deveria vir  casa durante o dia e encontrar com ele e com a me.
Leanna at podia explicar: - Bem, papai, Miguel pensa que Carlos e Dora so meus pais, o que o pai certamente interpretaria de forma errada.
Silenciosamente, Leanna passou pela porta da garagem e acendeu a luz. Olhou para o relgio e sufocou um gemido. timo! Ela teria que encontrar todos os faris verdes 
para conseguir
chegar ao Cinedome antes que-Miguel sasse. Ela no queria que ele pensasse que ela lhe dIa um cano.
"Isto no  um encontro", Leanna se lembrou enquanto destrancava a porta do Volvo branco do padrasto e escorregava para trs do volante.
Leanna apertou o boto que abria a porta automtica da garagem e a porta de alumnio abriu-se lentamente. O barulho, que Leanna mal escutava durante o dia, parecia 
como o de cem fantasmas balanando suas correntes. Fora da garagem, nada se via alm da escurido total.
Por um segundo, pensou em fechar a porta da garagem, voltar para o quarto e esquecer a idia de encontrar Miguel.
Mas tinha prometido. Ela devia isso a ele, tinha que ir, mesmo que fosse s para dizer que seus dois mundos nunca se encontrariam. Leanna virou a chave na ignio. 
O motor roncou vivo e
os faris penetraram a escurido como as luzes de busca de um helicptero da polcia.
Quase em pnico, Leanna apertou o acelerador e saiu antes que perdesse a coragem.
Miguel mudou de posio no banco de pedra do lado de fora da entrada do Cinedome. Dali, tinha uma boa viso do estacionamento vazio. Olhou de novo para o relgio. 
Era 00 hl5.
"Ela vir", disse a si mesmo. Mas e se seus pais no a tivessem deixado sair? Estava to acostumado a sair do trabalho  meia noite que s vezes esquecia como era 
tarde, especialmente para algum com padres rigorosos.
Miguel franziu a testa, checando de novo seu relgio. Por que no lhe ocorreu que os pais de Leanna no a deixariam encontrar um desconhecido depois da meia-noite? 
Ele no estava
pensando certo mesmo.
"Eu deveria ter conhecido os pais dela", disse a si mesmo.
"Ter passado algum tempo com a famlia dela, antes de encontr-la sozinha."
Miguel tinha decidido ir embora, quando um Volvo branco parou com uma forte brecada em frente ao prdio. Leanna saiu e encaminhou-se para o cinema, olhando da esquerda 
para a direita enquanto atravessava a rua. Sob a luz da rua, Miguel viu que ela vestia a mesma blusa com flores vermelhas e a legging preta, mas agora estava com 
uma jaqueta jeans nos ombros.
Ele levantou para que ela pudesse v-lo. - Leanna, aqui.
Leanna viu Miguel perto da entrada do cinema. Ele ainda vestia o ridculo colete vermelho, a camisa e as calas brancas. Quando chegou mais perto, viu que as calas 
dele estavam manchadas de chocolate, ou Coca-Cola.
Ao se aproximar, Leanna no sabia se estava contente ou se se lamentava de no ter desistido e ficado em casa. Ainda no tinha idia do que lhe diria.
- Desculpe, estou atrasada - comeou.
- Tudo bem. - Miguel sorriu para ela e por um momento, mesmo que o pai a castigasse para o resto da vida por ter pegado o carro, tinha valido a pena para ver o sorriso 
de Miguel de novo.
- Vamos para algum lugar conversar - disse Miguel. - Tem um restaurante que fica aberto a noite inteira mais par,a cima.
- No posso. - Se ela fosse jantar com Miguel, definitivamente seria um encontro. Leanna no queria sair com Miguel at que tivesse tido a chance de terminar com 
Scott. Alm disso, tinha
que levar o carro de volta antes que o pai percebesse que o carro - e ela - tinha sumido.
- No tenho muito tempo. Tenho que voltar para casa logo.
- Leanna sentou-se num banco prximo. - Podemos conversar aqui mesmo.
- O.k. - Miguel sentou ao seu lado.
Leanna sentiu o calor da pele dele atravs de sua jaqueta jeans, enquanto seus ombros se tocavam no banco estreito. Ela sentiu o cheiro agradvel da sua loo aps 
barba forte, misturado ao fraco, mas inconfundvel, cheiro de pipocas amanteigadas.
- Ento ... o que voc est fazendo em Sacramento? - perguntou Leanna. - Alm de vender pipocas, quero dizer.
- Moro aqui agora - disse. - Tudo aconteceu muito rpido. Sei que te contei que meus pais trabalhavam no Luzon Gardens Restaurant.
Leanna assentiu. - Lembro da lumpia da sua me. Era a melhor!
- Bom, muita gente tambm achava isso. Um tal de senhor Nufiez que estava no festival - explicou Miguel. - Estava pronto para inaugurar seu restaurante aqui, quando 
o seu cheffoi embora.
Ele foi ao festival em busca de algum para substitu-lo e ofereceu o trabalho a meus pais. Eles j vinham pensando em se mudar para c mesmo - o irmo do meu pai 
mora aqui. Acabamos de nos mudar h algumas semanas.
- Que bom para os seus pais! - exclamou Leanna. - Mas voc deve ter ficado chateado. Mudar de escola, deixar todos os seus amigos...
- Eu tinha acabado de te conhecer, por isso no estava com nenhuma pressa de mudar - Miguel encolheu os ombros. - Achei que nunca ia te ver de novo se mudasse para 
c. Mas tinha que vir com meus pais.
Leanna lembrou de Carlos lhe dizendo que as trs coisas mais importantes na cultura filipina eram a famlia, a religio e a educao. Andar com os amigos no fazia 
parte nem das dez mais.
- Ento, quando posso conhecer a sua famlia? - perguntou Miguel, chegando ainda mais perto dela. - Mal posso esperar para ver seu irmo Toby de novo. E quero ter 
uma longa conversa com o seu pai. Depois que me conhecer, sei que vai me deixar sair com voc.
- No! - deixou escapar Leanna.
Miguel se encolheu, parecendo magoado. - Achei que havia algo de especial entre ns no festival. Mas, se voc no quer sair comigo, bom ...
- No  isso. Quero sair com voc! - gritou Leanna, segurando o brao dele. Ela olhou para baixo, para sua mo que envolvia o brao moreno de Miguel. Ela viera para 
dizer adeus a Miguel, e aqui estava praticamente implorando para ficar!
Soltando o brao dele, Leanna nervosamente enfiou os dedos pelos longos cabelos. - Quero sair com voc, mas voc no pode pedir isso aos meus pais. Eles no esto 
aqui.
- O que voc quer dizer? - perguntou Miguel. - Eles esto bem? Espero que nada tenha lhes acontecido!
Leanna o encarou. Ento respirou fundo e rezou para que sua voz no tremesse. - Meus pais esto bem - disse. - Ainda esto em San Diego. Estou aqui porque ganhei 
uma bolsa para uma escola particular realmente boa em Fair Oaks. Fica a apenas alguns quilmetros daqui.
- Voc deve sentir muito a falta de seus pais - disse Miguel - Que terrvel para voc.
- No  to ruim. Quero dizer, tenho saudade deles - disse apressadamente -, mas Bayside  uma boa escola. E  realmente difcil conseguir entrar. Todas as classes 
estavam lotadas para o semestre do outono, mas houve um cancelamento na ltima hora, ento consegui a vaga.
Miguel concordou. - Quando meu irmo Noriel ia entrar na faculdade, veio para os Estados Unidos. Todos sentimos a sua falta, mas queramos que tivesse uma boa educao. 
Ento entendo como .
O seu plano estava funcionando!
- Meu pai fez a faculdade na Califrnia - contou a Miguel.
- Ento voltou para as Filipinas. Agora  professor do curso secundrio em San Diego.
- Pensei que voc tivesse dito que nunca esteve nas Filipinas - disse Miguel, levantando as sobrancelhas.
- E no estive! Meu pa voltou para l por pouco tempo. Duas semanas - disse Leanna. - Para visitar os seus pais. O resto da famlia ficou em casa.
Miguel perguntou. - Ento, voc tem outros parentes na Califrnia?
- No. Nenhum. - Leanna ficou quieta, esperando que Miguel no fizesse mais perguntas sobre a sua famlia.
- Ento, onde voc est morando?
- Em ... em Fair Oaks. - O corao de Leanna comeou a bater rpido de novo. O que ela diria agora? No podia dizer que tinha seu prprio apartamento: era muito 
jovem para isso.
De repente, ela se lembrou de Hiroko Yamasaki, um estudante de intercmbio que tinha morado com a famlia de sua amiga Wendy no ano anterior. Hiroko era de uma famlia 
japonesa conservadora e superprotetora. E eles no se importaram em saber que ela morava com - como Wendy dizia - uma famlia postia.
- Moro com o senhor e a senhora Van Haver e a filha deles, Kelli. So minha famlia postia - explicou Leanna. - Eles cuidam de mim e tudo, mas no sou parente deles.
- Ento acho que terei que falar com o senhor Van Haver - disse Miguel, como se tudo estivesse resolvido. - Ele vai estar em casa amanh? Eu poderia passar l  
tarde, antes do trabalho.
- Sim, acho que ele estar l - disse Leanna. Na verdade, seus pais iriam a uma exposio de antigidades na noite seguinte.
Quando Miguel aparecesse, ela poderia lhe dizer o quanto lamentava que ele no tivesse encontrado os Van Haver, mas que, antes de sair, eles tinham autorizado que 
ela fosse at o shopping ou a qualquer outro lugar onde Miguel quisesse ir. Poderia funcionar!
- Aqui esto meu endereo e telefone - disse, enquanto procurava na jaqueta jeans por uma caneta e papel.
- timo. Vou aparecer amanh por volta da uma hora.
Perfeito! A essa hora, os Van Haver estariam, seguramente, na exposio de antigidades.
- Te vejo amanh - disse Miguel, acompanhando-a at o carro. Enquanto Leanna abria a porta do passageiro, ele se curvou e roou-lhe um rpido beijo na testa. - Mahal 
kita, Leanna.
- O que quer dizer isso? - perguntou Leanna.
Miguel riu. Seus olhos brilhavam como diamantes negros sob a luz da lua. - Talvez algum dia eu te diga.
Leanna cantava uma cano romntica que tocava no rdio enquanto dirigia para casa tarde naquela noite. Quando ela sara de casa, no tinha idia de como explicaria 
os Van Haver para Miguel. Mas tudo dera perfeitamente certo. Com um pouco de sorte, Miguel nunca ficaria frente a frente com seus pais; e mesmo se ficasse, Leanna 
poderia facilmente resolver qualquer probleminha que surgisse. podia at dizer que seus pais postios preferiam que ela os chamasse de "papai" e "mame".
Leanna ficou satisfeita com sua esperteza. Agora, tudo o que tinha que fazer era colocar o carro do pai de volta na garagem e correr para cima sem acordar a famlia.
Ao chegar na entrada da casa, Leanna percebeu que sua sorte tinha acabado. Vrias janelas estavam iluminadas na casa, incluindo a da cozinha e a do quarto dos pais.
Por um momento, Leanna pensou em engatar a marcha  r e fugir. Em vez disso, apertou o boto para abrir a porta da garagem e entrou devagar.
Leanna ps o cmbio na posio de estacionar. Antes que pudesse desligar o motor, a porta da casa se escancarou. Seus pais estavam parados l, com seus robes de 
banho azuis-marinhos combinados, com a aparncia de que iam estrangul-la.
Nove
- Kelli, voc tem que me ajudar - Leanna implorou assim que seus pais saram de casa na manh seguinte. - Miguel estar aqui em uma hora.
- De jeito nenhum! - disse Kelli, pegando uma diet soda da geladeira. - Voc j no est encrencada o suficiente por ter sado escondida ontem  noite? Voc ouviu 
o que o papai e a mame disseram. Voc est de castigo em casa a semana inteira. Isto definitivamente significa nenhum rapaz em casa.
- Mas voc me deve - disse Leanna, empurrando o seu sanduche de atum meio comido no prato. - Voc poderia ter me protegido na noite passada.
Kelli colocou a lata de soda na mesa da cozinha. - Oh, claro. Como? Quando o papai comeou a gritar que algum havia roubado o Volvo, eu devia t-lo deixado chamar 
a polcia? Ento voc poderia ter sido pega pelos policiais ao invs do papai.
- Ok... Acho que no teve escolha - admitiu Leanna.
Kelli sentou-se  mesa em frente a Leanna. - Voc vai terminar seu almoo? Estou com muita fome.
Leanna deu mais uma mordida e ento empurrou o sanduche. - No tenho tempo. Tenho que tirar todas aquelas fotos de nossa famlia do corredor.
- Por que? - perguntou Kelli, pegando uma batatinha frita.
- Porque eu estou em todas elas! Miguel pensa que Carlos e Dora so meus pais. Voc so supostamente a minha famlia postia aqui em Fair Oaks - explicou Leanna. 
- Ele acha que conheci vocs apenas no ms passado. Como posso explicar todas aquelas fotos antigas de ns quatro?
Sem esperar resposta, Leanna correu para o corredor que ligava a cozinha e a sala de estar. As paredes estavam cobertas com fotos emolduradas, algumas de muitos 
anos antes. Havia vrias de Leanna sozinha com sua me e seu pai. Leanna pegou estas antes. Era possvel que Miguel no reconhecesse Leanna pequena, mas certamente 
se perguntaria o que os Van Haver, to loiros, faziam com uma criana de pele to morena.
Leanna estava carregando um monto de fotos quando Kelli veio da cozinha. - No acredito no que voc est fazendo. - disse.
A moa colocou uma ltima foto debaixo do seu brao e foi em direo da escada. - Vou coloc-las de volta quando Miguel for embora.
Kelli seguiu-a escada acima. - Oh, ento no somos to bons para Miguel.
Leanna abriu a porta de seu quarto com um chute e jogou as fotos emolduradas sobre a cama. - Nunca disse isso. Quero que voc conhea Miguel e, depois, ele tambm 
vai conhecer mame e papai.
- Ento porque voc est fingindo que somos sua famlia postia? - perguntou Kelli. - Achei que voc ia lhe contar a verdade.
- Eu vou. S que mais tarde. - Leanna desceu as escadas para tirar o resto das fotos das paredes. Kelli a seguiu, ainda tentando convenc-la a contar a verdade a 
Miguel.
- Kelli, Miguel ainda no pode desconfiar da verdade. - Leanna tinha pensado muito sobre isso durante a noite, especialmente depois dos sermes dos pais sobre confiana 
e responsabilidade. - A famlia dele  supertradicional. Seus pais so casados h um tempo. Voc devia ter visto a cara dele quando disse que estava vivendo aqui 
longe da minha me e do meu pai. Ele at pensou que tinham morrido ou algo assim. Acho que, na cabea dele, esta  a nica boa desculpa para no morar com os pais.
Leanna tirou mais uma foto da parede e a colocou nas mos de Kelli. - Miguel est procurando uma filipina autntica. Ele acha que sou 100% filipina.
- Ento por que voc acha Miguel to maravilhoso? - perguntou Kelli. - Ele parece ser muito preconceituoso.
- Bom... - respondeu Leanna, enquanto subiam as escadas, carregando o resto das fotos da famlia. - E se voc encontrasse um cara realmente interessante e ele dissesse: 
"Oi, meu nome  Jake, acabei de sair da cadeia depois de cinco anos, por roubar uma loja de bebidas". Voc sairia com ele?
- Que pergunta mais idiota. - Kelli balanou a cabea desconfortvel. - Talvez eu tenha tido alguns namorados desprezveis, mas no saio com bandidos.
- Ok - Leanna colocou as fotos sobre a cama, junto com as outras. - Ento digamos que voc encontre esse cara que  inteligente, lindo, maravilhoso em tudo. Voc 
sai com ele durante alguns meses e est totalmente apaixonada. Seus joelhos tremem a cada vez que voc est com ele. Ele acha que voc  a garota mais legal e mais 
linda que j conheceu. Voc confia nele completamente...
- Me apresenta - interrompeu Kelli. - Ele parece perfeito!
Leanna concordou. - Ele seria, se... Depois de vocs estarem se encontrando h algum tempo, ele te conta que foi preso uma vez por roubar uma loja. Ele e seu bando 
de amigos da escola fizeram uma aposta e ele foi pego. Voc daria o fora nele?
- Acho que no - disse Kelli. - Principalmente se tivesse sido apenas uma aposta inocente que tivesse dado errado... E, alm disso, j estou loucamente apaixonada 
por ele.
- Viu? - interrompeu Leanna. - Agora voc pode entender o motivo pelo qual no posso ainda dizer a verdade a Miguel. Se eu lhe contar a verdade sobre a mame e o 
papai, ele no vai querer sair comigo nunca mais. Mas, se ele me conhecer e  minha suposta famlia postia primeiro, ele vai gostar tanto de ns que, quando eu 
lhe contar a verdade, ele vai aceitar e me perdoar. Ele entender que tive de mentir como nica forma de ficarmos juntos.
Kelli balanou a cabea. - Voc est louca de achar que vou te ajudar nessa encenao mirabolante. Eu vou sair. Tenho que me preparar para uma foto e voc tem que 
cortar a grama esta tarde.
- Kelli, por favor! Voc s vai demorar alguns minutos. - Leanna gesticulava na direo das fotos da famlia sobre a sua cama. - Me ajuda a colocar algumas outras 
fotos nestas molduras e a pendur-las de volta na parede? No quero que Miguel perceba aquele monte de pregos nas paredes.
- Onde vou conseguir quinze fotos 25 por 20? - perguntou Kelli. - E por que voc no faz isso sozinha?
- Tenho que cortar a grama. - Leanna puxou o cabelo por cima do ombro direito e comeou a tran-lo. - Se eu me apressar, posso terminar antes de o Miguel chegar. 
Se a grama estiver cortada, mame e papai no vo suspeitar de nada.
Leanna prendeu a trana com um elstico e voltou-se para Kelli, que estava olhando para uma das fotos da famlia com uma expresso de dvida.
- Por favor!- implorou Leanna. - Eu j te ajudei a impressionar garotos. Lembra daquele cara na quinta srie com a coleo de minhocas? Eu cavouquei toda a horta 
da mame para que voc tambm tivesse a sua colao de minhocas.
- Ok, ok, eu vou ajudar - disse Kelli. - S no fale de novo do nojento Gene Quigley e de seus vermes! E outra coisa: se mame e papai pegarem Miguel aqui, no tive 
nada a ver com isso!
- Obrigada, Kelli. - Leanna deu um rpido abrao na meia-irm. Ela estava nervosa por desobedecer seus pais de novo, mas desta vez seu plano era seguro. A exposio 
de antiguidades  qual seus pais haviam ido terminava s cinco e eles adoravam olhar mveis antigos. Com certeza no voltariam antes do fim da exposio. Ela tinha 
a tarde inteira pela frente!

Miguel desceu a rua dirigindo sua velha caminhonete, checando os nmeros de cada caixa de correio. Brecou ao lado de uma casa ladeada com arbustos floridos e debruou-se 
para fora da janela para ver a caixa de correio escondida entre eles. Sim, este era o endereo de Leanna, na caixa de correio havia uma placa onde estava escrito 
Van Haver.
Miguel se dirigiu para a entrada da casa. No havia nenhum carro parado, ento ele estacionou em frente  porta fechada da garagem. 
Enquanto saltava do feio carro marrom, Miguel olhava o sobrado que Leanna dividia com os Van Haver. Era parecido com o que sua famlia alugara. O gramado de tamanho 
mdio acabara de ser cortado, e o zumbido que vinha de trs da cerca de sequia desgastada lhe dizia que algum estava cortando a grama do quintal.
Apertando o buqu de rosas amarelas que havia comprado para Leanna, Miguel se aproximou da porta da frente. Um grande gato amarelo e branco estava estatelado ao 
lado dela, bloqueando a passagem. Ele no tinha a maior parte da orelha esquerda. O gato bocejou e Miguel reparou que lhe faltavam muitos dentes tambm.
- Oi, amigo - disse Miguel, abaixando-se para coar atrs da nica orelha do gato, que fechou os olhos e esfregou a cabea contra a palma da mo de Miguel ronronando 
suavemente.
- At mais. - Miguel fez uma ltima carcia no gato e pulou por cima dele para tocar a campainha.
Vrios segundos se passaram sem que ningum viesse abrir a porta. Miguel apertou a campainha de novo. Se ningum viesse desta vez, ele iria at a cerca falar com 
quem estivesse cortando a grama.
De repente, a porta se abriu. - Voc deve ser Miguel. - disse uma voz forte de garota. - Sou Kelli Van Haver. Entre.
Miguel no conseguiu disfarar seu espanto quando viu uma garota muito mais alta que ele, com umas sandlias pretas de salto que aumentavam sua altura uns sete centmetros; 
um cabelo longo, loiro platinado preso no alto da cabea num penteado com tranas e cachos; usando um vestido tomara-que-caia branco e preto e um par de brincos 
imitando brilhantes, exageradamente maquiada at para aquelas roupas.
Por um momento, Miguel no teve certeza se Kelli Van Haver era bonita ou no. Ela era fascinante... mas de uma forma exagerada. Se era assim que ela se vestia para 
ficar em casa sbado  tarde, o que ela pensaria de seus shorts jeans e de sua camiseta?
Enquanto Miguel hesitava na porta de entrada, o gato roou-lhe as pernas, saltando rapidamente para dentro da casa.
Kelli deixou escapar um grito agudo. - Tumbleweed! Saia daqui sua grande e feia bola de plos!
Miguel no podia acreditar que uma garota falasse assim com seu prprio gato.
- timo. Ele fugiu - murmurou Kelli. - Espere at eu colocar minhas mos nesse gato. Vou estrangul-lo.
Miguel entrou sem jeito no hall. - Leanna est?
- Ela est terminando de fazer algumas coisas - disse Kelli, olhando para o buqu na mo de Miguel. - Voc pode esperar aqui, mas as flores vo ter que ficar l 
fora.
- Por qu? So para Leanna - disse Miguel sem entender. Queria dar uma boa impresso para a famlia postia de Leanna, e no compreendia por que Kelli olhava para 
as rosas perfumadas como se fosse um mao de ervas venenosas.
- Bom, acho que no tem problema entrar com as flores - Kelli balbucoiu. - Entra.
Kelli virou-se com agilidade sobre seus saltos, parecendo flutuar pelo corredor. Miguel a seguiu, perguntando-se como ela conseguia andar to graciosamente com sapatos 
to absurdamente altos.
Enquanto andava pelo corredor, Miguel viu as fotos penduradas nas paredes. No era incomum pendurar fotos da famlia, sua me tinha algumas na sala de estar. Mas 
as fotos na casa dos Van Haver eram muito estranhas.
Eram todas de Kelli, algumas coloridas, outras em preto-e-branco, mas todas eram closes de Kelli da cintura para cima ou do rosto. Em algumas ela estava com o cabelo 
penteado com laqu, parecendo uma peruca. E todas as roupas de Kelli pareciam fantasias: casacos de pele, jaquetas de couro pretas, boas de penas brancas.
Kelli o levou at uma pequena cozinha. - Pode sentar. Quer que coloque as flores na gua?
- No, obrigado. Gostaria de d-las a Leanna. - Miguel segurou o mao com cuidado, enquanto se sentava  mesa da cozinha.
- Leanna est cortando a grama- explicou Kelli. - Quer beber alguma coisa? Ch gelado, Coca-Cola, cerveja sem lcool?
- Um pouco de ch gelado. - Miguel observou Kelli pegar um jarro de ch gelado da geladeira.
Parecia que Kelli estava tentando parecer simptica, mas Miguel no se sentia confortvel perto dela. Depois de servir o ch, ela se sentou no canto da cadeira e 
o observou enquanto ele bebia, sem dizer nada, o que fez com que Miguel se sentisse como uma espcie de animal extico no zoolgico.
Miguel queria que Kelli fosse embora, mas, em vez disso, ela abriu uma lata de diet soda e comeou a beber. - Ento, Miguel - ela perguntou - , o que est achando 
de Sacramento?
- Legal - Na verdade, tinha sido bastante sem graa at encontrar Leanna. Mas Kelli no precisava saber disso. - Seu pai est em casa? - perguntou Miguel. - Gostaria 
de conhec-lo.
- No, no tem ningum em casa - disse Kelli, tomando um gole de soda.
Miguel deu um sorriso forado. - Tudo bem se eu for at o jardim ajudar Leanna a acabar de cortar a grama?
- tima idia - disse Kelli, parecendo aliviada. - Tenho que retocar minha maquiagem, meu batom borrou um pouco bebendo soda.
"Pode acreditar que ainda sobrou muito", pensou Miguel, ainda sorrindo enquanto Kelli abriu uma cortina atrs da qual apareceu uma porta de vidro de correr. Atravs 
do vidro, Miguel viu um enorme quintal. Leanna, que vestia shorts verdes e uma camiseta verde e branca combinando, empurrava um pesado cortador de grama.
Colocando suas flores sobre a mesa, Miguel abriu a porta. A viso da pequena Leanna lutando com o pesado cortador de grama era demais para ele.
Ao mesmo tempo que Miguel abria a porta, Kelli espirrou algo atrs dele - Pelo amor de Deus, feche esta porta! - gritou Kelli. Antes que ele pudesse obedecer, a 
prpria Kelli fechou a porta de vidro com tanta fora que Miguel estranhou que ela no tivesse lhe dado um empurro.
Ele ps as mos em concha e gritou mais alto que o barulho do cortador de grama. - Oi, Leanna! Voc precisa de ajuda?
Leanna desligou o cortador de grama e foi ao seu encontro. Seu cabelo, numa nica trana que chegava at quase a bainha de seu short, brilhava, e suas bochechas 
estavam vermelhas do calor. Apesar de estar quase desmaiando de cansao, sorria.
No chegue muito perto - ela disse, parando a alguns metros dele. - Estou muito suada.
- No ligo, se voc no ligar.
Ela andou at ele, que a abraou bem apertado. O corao dela, batendo contra o seu peito, parecia fazer parte do mesmo corpo. - No ligo que voc esteja suada, 
prefiro abraar voc do que algum como Kelli, toda perfumada, cheia de brilho e nada mais.
Leanna riu. - Isso  meigo. Estranho, mas meigo.
Relutantemente, ele a soltou. - Vamos acabar com este gramado, assim poderemos sair daqui.
Enquanto Miguel acabava de cortar a grama, Leanna empilhava com um ancinho a grama cortava. Quando ele acabou de cortar comeou a ajud-la a recolher a grama cortada 
em sacos de lixo.
- Ei, Miguel - gritou Leanna.
Ele se virou e algo macio bateu-lhe no peito. Leanna riu e abaixou-se para pegar outro punhado de grama.
- Ei! - ele gritou.
Tirando a grama do cabelo, Miguel disse - Ok, se  uma guerra o que voc quer, voc a ter.
- No se eu te pegar primeiro!
Pegando um punhado de grama cortada, Miguel correu atrs dela at chegar perto de uma rvore. Leanna escapou do arremesso e correu de volta para pegar mais munio.
- No  justo! - gritou Miguel vendo Leanna pegar um saco cheio de grama. - O que voc acha que vai fazer com isso?
- Olhe!
Sorrindo maldosamente, Leanna andou at ele com o saco. Miguel esperou que ela estivesse bem prxima e, ento, enquanto ela virava o saco na cabea dele, ele pegou 
o lado oposto e o empurrou na direo dela.
Leanna o empurrou e perdeu o equilbrio. Miguel segurou-a pela cintura, mas escorregou no saco de lixo plstico. Gargalhando, caram juntos no cho. Pedaos de grama 
faziam-lhe ccegas no pescoo e se emaranhavam nos seus cabelos e roupas.
- No sabia que voc era uma mulher to selvagem. - E levantando-se Miguel puxou Leanna. - No acredito que vamos ter de recolher tudo de novo.
- No me importo - disse Leanna, colocando os braos em torno do pescoo dele. - Voc parecia to srio. Eu tinha que fazer alguma coisa para te fazer sorrir.
Miguel encostou a testa na dela. Ele gostava do fato de que tinham quase a mesma altura. Sem nenhum esforo, podia olh-la bem nos olhos. E, se inclinasse a cabea 
um pouco, seus lbios se tocariam.
- Leanna - disse com voz rouca. - Sei de uma maneira melhor de voc me fazer sorrir.
- Ah, ? - Os olhos escuros de Leanna cintilaram provocadores. -  algum costume filipino que no conheo?
Os braos de Miguel enlaaram sua cintura. - Juro que vai ficar conhecendo.
Devagar, como que atrados por alguma fora magntica, os lbios de Miguel encontraram os dela. Os olhos dele se fecharam e, de repente, pareciam que as ltimas 
semanas nunca tinham acontecido. Ele e Leanna estavam de volta ao Festival Filipino em San Diego, mas o beijo deles desta vez no era tmido ou exitante, mas profundo 
e cheio de promessas. Leanna estava em seus braos e nada mais importava.
Quando Miguel finalmente abriu seus olhos, Leanna sorria para ele. Seu rosto esta corado e a grama pontilhava seu cabelo com reflexos verdes. E, quando sua mo macia 
moveu-se na direo de seu rosto, ela o fez se sentir o cara mais importante do mundo.
Ele a beijou de novo. Os lbios dela eram mornos e tinham um pouco do gosto de grama recm-cortada. O tempo pareceu parar enquanto eles se abraavam.
- Oh, no - disse Leanna, soltando-se dele.
- O que h de errado? - Miguel perguntou, magoado e confuso. Mas, ento, ele viu Leanna olhando em direo  porta.
- Estou na maior encrenca - gemeu Leanna.
Dez
Leanna nunca tinha sentido tanta vergonha na vida. Num minuto, ela estava beijando Miguel, esquecendo-se de que eles no eram as duas nicas pessoas no planeta. 
E, no seguinte, seus pais a estavam vendo beijar Miguel.
- Deus, eles parecem prontos para explodir - disse Miguel. - Voc no lhes disse que eu vinha?
- Ah... sim - Leanna gaguejou, com os joelhos tremendo.
O brao forte de Miguel em volta de sua cintura era a nica coisa segura que a firmava. Uma boa filipina nunca sairia escondida dos pais, ou pais postios, com um 
rapaz!
-  a grama - disse Leanna. - Prometi cort-la antes que eles voltassem para casa.
- Vou dizer que foi culpa minha - disse Miguel. Leanna balanou a cabea. - No, cuidarei disto. - Estava orgulhosa com a atitude de Miguel de querer proteg-la. 
Mas, quanto menos ele falasse com os pais dela, melhor. Talvez ela ainda pudesse dar um jeito. A senhora Van Haver abriu a porta de vidro. - Leanna - gritou -, voc 
poderia vir aqui, por favor.
A voz de sua me parecia calma e controlada, mas Leanna conhecia bem a sua me. A senhora Van Haver sempre dava a impresso de estar muito calma quando aplicava 
os piores castigos.
- J volto - disse Leanna a Miguel, caminhando devagar at a porta de vidro.
Sua me estava parada na porta aberta. Seu pai ainda estava do outro lado da sala, onde era seguro. Ele e Kelli eram extremamente alrgicos a grama recm-cortada.
- Aqui. - A senhora Van Haver pegou algo de trs dela e, para a surpresa de Leanna, deu-lhe um maravilhoso buqu de rosas amarelas.
- So lindas - disse Leanna perplexa, pegando o buqu de sua me. Por que ela estava lhe dando o buqu, em vez de lhe dar uma bronca? - mas papai  alrgico a rosas.
- Sem brincadeiras - a senhora Van Haver disse de dentro da casa. Leanna olhou atrs de sua me e viu que os olhos do padrasto estavam comeando a lacrimejar. 
- Concluo que foi aquele garoto que as trouxe - disse a me de Leanna. - V l fora e agradea a ele, avise que seu pai  alrgico e ento mande-o ir para casa.
- Mas ele me trouxe flores - disse Leanna admirada. - No posso simplesmente devolver as rosas e mand-lo embora! Seria uma grosseria.
A expresso de sua me no se abrandou nem um pouco. Voc liga para ele depois. Alis, quem  ele? Nunca o vi antes.
- Seu nome  Miguel Sarmiento. Eu o conheci em San Diego. Acabou de se mudar para c e no conhece ningum. Sei que no posso sair - Leanna continuou - mas vocs 
no poderiam, por favor, fazer esta nica exceo?
- Ele parece um bom rapaz - admitiu a senhora Van Haver, enquanto olhava para fora.
Leanna seguiu o olhar da me e viu Miguel recolhendo a grama espalhada. Por um momento, achou que a me poderia fraquejar, mas seu corao ficou pesado quando viu 
sua me cruzar
os braos.
- Alm de voc sair escondida na noite passada, voc recebe a visita de um amigo enquanto est de castigo - disse a senhora Van Haver, balanando a cabea. - Sinto 
muito, mas Miguel
vai ter que ir embora.
- Pode dizer que o receberemos de braos abertos quando no estiver todo coberto de grama - acrescentou o senhor Van Haver assoando o nariz ruidosamente. - Leve-o 
pelo porto, no
por dentro da casa. Ano ser que voc no se incomode em passar a noite toda acordada, ouvindo Kelli e eu espirrando.
A senhora Van Haver acabou com a conversa fechando a porta de vidro, mas Leanna teve a sensao de que a discusso no tinha terminado. Ela caminhou at Miguel, 
que ainda estava ocupado com o ancinho. Seu rosto murchou quando ela lhe entregou as flores.
- O senhor Van Haver  alrgico a flores - explicou Leanna. - Sinto muito, mas tenho que pedir para voc ir embora.
Miguel deixou cair o ancinho. - S porque eu te trouxe flores? - Ele balanou a cabea, parecendo decepcionado. - Leanna, talvez no seja da minha conta, mas essa 
sua famlia postia
parece muito estranha.
- Vem, vamos falar sobre isso l na frente. - Leanna deu uma olhada nervosa para a porta de correr. Sua me ainda estava parada, olhando para se certificar de que 
ela obedeceria. O pai tinha ido embora, provavelmente para tomar um de seus comprimidos para alergia.
Enquanto atravessavam o porto e passavam pelo lado da casa, Leanna tentava chamar a ateno de Miguel. Mas ele s olhava para o cho. Seus lbios estavam apertados 
e ele de novo balanava a cabea.
Uma caminhonete muito feia estava parada na frente da casa. Era supervelha e toda marrom, com exceo de uma porta azul. Miguel caminhou at ela, abriu a porta azul 
e jogou as rosas amarelas no banco da frente.
Leanna limpou a garganta. - Miguel, por favor no fique bravo. No queria que voc fosse embora, mas tenho que obedecer os Van Haver. Neste momento, isso significa 
acabar de limpar
o quintal sozinha e no te ver durante uma semana.  como ontem  noite, quando voc estava trabalhando. Voc queria falar comigo, mas tinha que enxugar o cho.
- No  a mesma coisa. - Os braos de Miguel a seguraram pelos ombros. - No vivo com a minha chefe e no  ela quem diz com quem posso ou no sair! O que os teus 
pais acham do jeito como os Van Haver te tratam?
- Eles... Bem, eles no acham ruim - balbuciou Leanna.- Quero dizer, tenho que retribuir de alguma forma o meu quarto e a comida.
- Mas voc no  empregada deles! O senhor Van Haver no pode cortar o gramado?
- Ele tambm  alrgico a grama - disse Leanna.
De repente, a porta da frente da casa se escancarou. Kelli, usando seu elegante vestido preto-e-branco, saiu, segurando o gato do vizinho pelo pescoo.
- Cai fora! - gritou, jogando o gato no gramado. - E fique longe!
- Voc viu isso? - disse Miguel crispando a boca de desagrado. - Ela est maltratando um animal inocente.
- O gato no  dela. Tumbleweed  dos vizinhos e pensa que esta casa  uma lata de lixo gigante. Ele sempre entra escondido e faz sujeira. Alm disso, pa ..., bem 
..., o senhor Van Haver e Kelli so alrgicos a plo de gato.
- Existe alguma coisa a que eles no sejam alrgicos? - perguntou Miguel ceticamente.
- Olha, voc no est entendendo, se Kelli ficar perto de algum gato, ela fica inteirinha cheia de brotoejas vermelhas horrveis - explicou Leanna. - Isto seria 
uma completa tragdia porque ...
Miguel no deixou Leanna acabar de explicar. - , com certeza seria uma verdadeira tragdia se Kelli tivesse umas bolinhas - interrompeu sarcasticamente. - O que 
ela , alguma princesa? Seus pais forram a casa com fotos dela e voc fica toda chateada porque ela pode ter brotoejas. No   toa que ela  to convencida.
- Gosto muito de Kelli - disse Leanna brava. - Como voc pode falar dela, sem sequer conhec-la?
- E nem quero conhec-Ia! - explodiu Miguel. - Ela  uma esnobe egosta. No tem nada na cabea, s pensa em penteados, comprar roupas novas e em se maquiar. Garotas 
assim me do
enjo.
- timo! - gritou Leanna. - Se  assim que voc se sente, acho melhor ir embora! No preciso ouvir isso sobre a minha famlia!
Miguel deu um passo para trs. Parecia to surpreso como se tivesse levado um tapa. - Por que voc os defende? Os Van Haver no so sua famlia. No deixe que fiquem 
entre ns dois.
Leanna segurou a maaneta da porta do carro para impedir que suas mos tremessem. Por pouco ela quase no estragara tudo! Precisava tomar mais cuidado.
- Quero dizer minha famlia postia - disse Leanna, com voz trmula. - Eu gosto dos Van Haver, Miguel. Voc no entende?
- Voc est certa. No entendo. - A voz de Miguel estava calma, mas muito fria. - No entendo por que voc deixa que eles te dominem. Achei que voc era o tipo de 
garota que se cuidava
sozinha. - Depois disso, Miguel entrou no seu carro e foi embora, sem lhe dar um beijo e nem dizer "te ligo". S deu r para sair da entrada da casa e da vida de 
Leanna.
Leanna acabou de limpar o gramado e subiu para tomar um banho. Depois, enrolou uma toalha no cabelo molhado e colocou seu robe felpudo rosa. Quando voltou para o 
seu quarto, encontrou
a sua me sentada em sua cama.
- Olha, mame - comeou Leanna, antes que sua me pudesse comear com o sermo. - Sinto ter quebrado as regras. Me deixe sem sair at o fim do ms e pronto.
- Vamos manter uma semana - disse a senhora Van Haver cruzando as pernas e se ajeitando no travesseiro de Leanna. - Mas precisamos conversar.
- Prefiro ficar sem sair - disse Leanna.
Do modo como sua me estava se ajeitando na cama parecia que ia ficar l por muito tempo.
- O papai e eu no gostamos de te castigar - disse a senhora Van Haver. - Mas nos preocupamos quando voc faz algo perigoso, como sair sozinha  noite com um garoto 
que no conhecemos.
Ento, hoje, quando voltamos para pegar meu carto de crdito e vimos um carro estranho parado na entrada, quase chamamos a polcia. Aquele traste parecia algo em 
que s uma pessoa
de rua moraria.
- Mame! - gritou Leanna, sentando-se na cama ao lado da me e cobrindo o rosto com as mos. Ela achava que j tinha sido humilhada o suficiente naquele dia, mas 
acabava de ser ainda mais. Por pouco sua me no fez com que Miguel fosse preso!
- O que eu deveria pensar? - perguntou-lhe sua me. Voc no tinha permisso para receber amigos.
- Eu disse que sinto muito! - gritou Leanna.
A senhora Van Haver colocou a mo gentilmente no ombro de Leanna. - Querida, por que voc acha que tem que sair escondida com Miguel? O papai e eu nunca a impediramos 
de sair com
ningum que voc quisesse. H algum motivo para voc no nos ter contado sobre Miguel? Voc tem vergonha dele?
Leanna levantou a cabea rapidamente. - No! Miguel  um timo rapaz!
- Ele  filipino, no?
- E da? - indagou Leanna. - Isso no  nada para se envergonhar. - Ela puxou a manga de seu robe de banho e colocou seu brao moreno perto do brao branco da me. 
- Eu sou filipina,
mame. Ou voc nunca percebeu?
A me de Leanna ignorou o comentrio. - Seu pai telefonou enquanto voc estava no banho - disse ela, ainda com uma voz calma e gentil. - Parece que ele acha que 
no quero que voc
o visite. Acusou-me de ser a responsvel por impedir que voc conhea sua herana filipina. Voc sabe de onde ele tirou esta idia errada, Leanna?
- No - balbuciou Leanna, inclinando a cabea e esfregando a toalha vigorosamente no cabelo molhado.
- Leanna, olhe para mim quando falo com voc.
Leanna estudou o rosto da me, procurando alguma conexo entre elas. No via nada de si mesma nos olhos redondos azul acinzentados, na pele clara e no longo cabelo 
loiro. Alison Van
Haver parecia mais a me de Kelli do que de Leanna.
- Espero nunca ter dito nada que lhe desse uma impresso ruim de seu pai, ou de ser filipina - disse a senhora Van Haver, torcendo as mos. - Quero que tenha orgulho 
de sua ascendncia.
- Tenho, mame. - Leanna tirou a toalha da cabea e passou os dedos pelo cabelo longo e molhado.
A senhora Van Haver pegou um pente da cmoda e o entregou para a filha. - Podemos conhecer Miguel na semana que vem?
- Acho que no - disse, lembrando das coisas ruins que Miguel havia dito sobre os Van Haver. Leanna achava pouco provvel v-lo de novo. Engoliu um soluo parado 
na garganta e disse: - Miguel  de famlia filipina tradicional. Fala tagalo e tudo. Acha que sou muito americana para ele.
- Voc poderia comear a estudar sobre as Filipinas - sugeriu a me. - Fale com seu pai. Ele no te deu alguns livros e fitas?
- Sim. - Leanna passava o pente pelo cabelo. - Mas e se no der certo? Miguel procura uma filipina tradicional. Tenho medo de nunca estar  altura.
A senhora Van Haver franziu a testa. - Leanna, voc no deveria conhecer as Filipinas s para agradar a Miguel, nem ao seu pai. Isso  algo que voc deveria fazer 
por voc mesma. S voc
pode decidir o quanto quer aprender e o que  importante para voc. No mude o seu modo de ser para se adequar  idia de garota perfeita de algum rapaz. Faa Miguel 
ver a verdadeira Leanna e ento deixe que ele decida se acha que vale a pena conhec-la melhor.
Leanna se lembrou do que Miguel dissera sobre Kelli. - Mas e se ele me achar egosta e esnobe?
- Ento  ele que no vale a pena conhecer. - A senhora Van Haver se inclinou para abraar a filha. - Sei que  difcil para voc acreditar nisto agora, mas vo 
haver outros rapazes na sua
vida. E por falar em outros rapazes, querida ..., voc pensou no Scott?
"No ultimamente", Leanna teve vontade de dizer. Era estranho, mas, quando Miguel estava por perto, ela se esquecia completamente que Scott existia.
- Bom... ainda estou tentando pensar no que fazer com ele - admitiu Leanna.
- Tenho certeza de que voc vai tomar a deciso certa - disse a senhora Van Haver, levantando da cama de Leanna. - S mais uma pergunta. Quem colocou as fotos do 
portflio de modelo de
Kelli no hall?
- "Devem ter sido as nicas fotos 20 por 2S que Kelli conseguiu encontrar" - pensou Leanna. No  de se admirar que Miguel tenha achado Kellimuito cheia de si!
- Foi idia minha - confessou Leanna. - Vou colocar as nossas fotos de volta.
Abraando um travesseiro contra o peito, Leanna viu a me sair do quarto. Podia dizer, pelos passos vigorosos da me, que ela achava que os problemas da filha estavam 
resolvidos. O que apenas mostrava a Leanna o quanto sua me estava por fora.
"Deixe Miguel ver a Leanna real." Sim, claro. Miguel deixara muito claro que no queria a Leanna real. Ou, pelo menos, no a sua metade americana.
Leanna rolou para fora da cama e olhou embaixo dela. Colocou o brao na escurido  empoeirada e puxou tudo o que encontrou. Uma meia cor-de-rosa, um chinelo azul, 
a caneta que
perdera ... e uma fita cassete selada de Tagalo para conversao.
Leanna rasgou o papel celofane e colocou a fita no seu toca fitas. - Como vai? - perguntava uma voz de homem. - Kumust ka?
- Kumust ka? - repetiu Leanna. "Miguel pode no voltar", pensou, "mas se voltar, estarei pronta para ele!"

Onze
- Aonde voc est indo? Saan ka pupunta? - perguntou o narrador da fita de tagalo. Esta era fcil. - Saan ka pupunta - repetiu Leanna. Ela tinha ficado acordada 
at tarde no sbado  noite, escutando as fitas e estudando os livros que Carlos lhe dera. Era domingo  tarde e ela estava praticando tagalo de novo.
- Vou s compras - disse a fita. - Magsha-shaping.
- Eu poderia estar shaping no shopping neste exato minuto, se no estivesse de castigo sem poder sair. - Kelli e duas amigas tinham ido shaping esta tarde.
- Posso ir com voc? Pwede ba aking sumama sa iyo? 
- Pwede - pwede - voc deve estar brincando! - exclamou Leanna. Algumas expresses em tagalo eram bem fceis, mas outras tinham letras demais. Ela esticou o brao 
e parou a fita. Alis, quem  que inventou esta lngua?
Ela ouviu uma batida na porta de seu quarto. - Leanna, posso entrar? - perguntou seu padrasto.
- Tuloy ka! - gritou Leanna. Esta era uma boa expresso em tagalo: fcil de pronunciar, fcil de lembrar e com um som muito melhor do que" entre".
- O qu? - perguntou o pai.
Leanna abriu a porta. - Falei "entre" em tagalo.
O senhor Van Haver entrou no quarto de Leanna. - Querida, voc ... o que  isto? - ele perguntou, olhando para um pster de uma filipina com sapatilhas de bal e 
uma saia de bailarina branca, pendurado em cima da cama de Leanna. Na vspera, havia um pster do Brad Pitt pendurado ali.
- Esta  Lisa Macuja. Era uma bailarina famosa do Bal da Rssia. - Leanna abriu a porta de seu armrio onde um pster de outra jovem filipina estava colado do lado 
de dentro. - E esta 
Lea Salonga. Voc sabia que era dela a voz da princesa Jasmim no filme da Disney Aladim?
- No, no sabia - admitiu o senhor Van Haver, sorrindo. - Onde voc conseguiu esses cartazes?
- Carlos me deu h muito tempo. Ele achou que me serviriam de inspirao ou algo assim - explicou Leanna. - Estou tentando aprender tagalo e achei que eles me colocariam 
no esprito
da coisa - disse, olhando ansiosa para o rosto do padrasto.
-  uma grande idia. Uma segunda lngua  sempre uma vantagem no mundo de hoje.
- Mas no tenho muita certeza se estas fitas so de fato muito teis - reclamou Leanna. - Elas tm todos os tipos de expresses para turistas, como "Onde  o hotel?" 
e "Onde  o aeroporto?".
Mas no h muitas palavras de uso dirio.
- Posso checar a seo de lnguas na biblioteca - se ofereceu o pai -, trarei tudo o que achar sobre as Filipinas. - O senhor Van Haver trabalhava numa grande diviso 
da biblioteca
central de Sacramento.
 -Voc no precisa fazer isso - disse Leanna fechando a porta do armrio.
- Mas quero fazer. Estive pensando que talvez tivssemos que ir todos s Filipinas nas frias - disse o senhor Van Haver. 
- Voc gostaria?
- Seria timo - disse Leanna baixinho, mal podendo acreditar. Ela tinha ficado com medo de que ele se sentisse magoado ou ameaado se ela demonstrasse muito interesse 
pelas Filipinas, mas, em vez disso, ele estava se desdobrando, tentando ajudar.
- Oh, quase esqueci por que vim at aqui - disse o pai, parando na porta. - Scott est l embaixo. Disse a ele que voc est de castigo, mas ele disse que era importante. 
Voc pode v-lo por alguns minutos. Ele est na sala de estar.
Encarar Scott era a ltima coisa que Leanna queria fazer naquele momento. Na noite anterior, ela decidira que o mais justo seria parar de sair com Scott. Mas ainda 
no era o momento.
No entanto ele estava l. Leanna parou na entrada da sala de estar, observando Scott olhar as fitas dos Van Haver. Como de hbito, Scott estava supertransado, jeans 
desbotados e uma camisa havaiana florida. Tambm como de hbito ele no percebeu sua presena at que ela pigarreou.
- Oh, oi - disse Scott, se afastando das prateleiras de vdeos. - Humm, seu pai disse que voc est de castigo, ento s vou ficar um minuto.
Scott sentou sem jeito na ponta do sof. Leanna sentou-se perto dele, mas no conseguia encar-lo. "Sei por que estou to nervosa", pensou, "mas por que Scott est 
to inquieto?".
Scott pigarreou. - Escuta, sobre sexta-feira  noite, Glenn foi totalmente insuportvel e eu lamento.
- Tudo bem - interrompeu Leanna.
Scott balanou a cabea. - No, no est tudo bem. Sair com Glenn e Kellino era minha idia de uma noite divertida, mas como voc quis ir, deveria pelo menos ter 
tentado ficar numa boa
com ele. A noite foi um completo desastre e voc s piorou tudo.
Leanna encarou Scott. - Voc quer que eu me desculpe com voc? - perguntou com indignao. No podia acreditar no que estava ouvindo. Sua simpatia por Scott evaporou-se 
rapidamente. - Voc deve estar brincando.
- Escuta, Leanna ... - comeou Scott, batendo com as pontas dos dedos na mesa de centro. - Na realidade, eu vim porque acho que temos que conversar sobre ns dois.
Leanna respirou profundamente. - As coisas no tm andado muito bem ultimamente, no ?
- Eu gosto de voc. - disse Scott esticando o brao e pegando na mo dela. - Mas, desde que voc voltou de San Diego, sinto que est a quilmetros de distncia. 
Como se houvesse algo no
caminho. Voc est ... est saindo com algum?
- No realmente - disse Leanna. Eera verdade. Desde o desastre de ontem, ela achava que jamais tornaria a ver Miguel novamente. Ela apertou a mo de Scott e ento 
retirou a sua. - Mas isso no importa. O que importa  que acho que estamos nos afastando. Talvez a gente ainda saia porque nos sentimos bem um com o outro, mas 
j no  mais emocionante.
- Sei o que voc quer dizer. Ento ... isso quer dizer que estamos desmanchando? - perguntou Scott gentilmente.
Leanna engoliu em seco. - ,  isso o que voc quer?
- Quero que sejamos amigos - disse Scott. - Concordo com voc. As coisas no andam bem entre ns.
Leanna sentiu seus olhos se encherem de lgrimas. "Isto  completamente idiota!", pensou. "Quero romper com Scott. Ento por que estou chorando?"
Enquanto enxugava os olhos impacientemente, um pensamento horrvel lhe ocorreu. Talvez ela quisesse romper com Scott, mas no queria que Scott rompesse com ela! 
Ela no se importava em dar o fora em um cara, mas no suportava que fizessem isso com ela. Como era egosta! Tanto quanto ... quanto Glenn Garrick!
Scott foi embora alguns minutos depois e Leanna subiu para seu quarto e se jogou na cama. No queria chorar, mas no conseguia segurar as lgrimas.
"Mas eu no amo Scott", pensou Leanna, sentando e enxugando o rosto. Scott tinha razo: ele e Leanna haviam se afastado. Ela e Scott simplesmente no haviam sido 
feitos para ficarem juntos.
- Miguel! - Leanna exclamou ao atender o telefone mais tarde. Seu corao deu um pulo enquanto ela afundava numa cadeira na cozinha.
- Estou no trabalho, ento no posso falar muito - disse Miguel. Leanna o escutou respirar profundamente. - Eu, bem ... quero me desculpar por ontem. O que tua famlia 
postia faz no
 da minha conta. Eu estava completamente errado.
- Desculpas aceitas - disse Leanna.
- Legal - disse Miguel. Seguiu-se um longo silncio.
- Miguel? Voc ainda est a?
- Sim. Eu ... eu estava pensando ... Voc gostaria de sair comigo? Num encontro de verdade? - perguntou Miguel.
- Mas  que estou de castigo - lembrou Leanna, sorrindo; h algumas horas a sua vida era um desastre, e de repente tudo parecia estar se ajeitando.
-  no prximo sbado - disse Miguel. - Minha prima Roslia vai fazer uma festa de aniversrio de dezoito anos. Ela mora em So Francisco. Voc quer ir comigo?
- Claro. Parece divertido - disse Leanna, com uma pontada de decepo na voz.
Miguel falava como se a festa de aniversrio de sua prima fosse um grande acontecimento.  claro que Leanna gostaria de v-lo em qualquer circunstncia, mas ele 
no poderia ter pensado em algo mais ntimo ... mais romntico para o primeiro encontro deles de verdade?
- timo! - disse Miguel. A felicidade dele era bvia.
Leanna sentiu uma onda de calor descer at os ps.
- Vou te buscar s quatro - disse Miguel. - Sei que voc vai gostar da Roslia e vai adorar a festa. Se voc est com saudade de uma verdadeira comemorao filipina, 
esta ser a oportunidade.
Leanna desligou o telefone, sentindo-se ao mesmo tempo eufrica e confusa. Tinha um encontro com Miguel! Mas por que ele chamara a festa da prima de "comemorao 
filipina"? At onde sabia, os filipinos no comemoravam seus aniversrios de forma diferente dos americanos. Carlos lhe mandava cartes de aniversrio e presentes 
normais todos os anos.
Talvez Miguel quisesse dizer que serviriam comida filipina na festa ou que todos os convidados seriam filipinos.
Por precauo, ela telefonaria para Carlos para perguntar se havia algo especial que devesse saber sobre festas filipinas. "Esta  a minha grande chance"  pensou 
Leanna. "No posso estragar tudo desta vez!"

Doze
- No, no h nada diferente nos aniversrios filipinos - disse Carlos. Era segunda-feira, depois da escola.  - Nossas festas so como a dos americanos.
- Obrigada, Carlos. Vou a uma festa de aniversrio com um ... um amigo filipino no sbado - disse  Leanna. - E no quero dar nenhum fora.
- Estou contente por voc conhecer outros filipinos e nossos hbitos - disse Carlos. - Ei, j te falei sobre a tribo Bontoc? As mulheres so conhecidas pelos seus 
tecidos. Algumas tribos at acreditam que elas tecem de forma mgica e que todos os poderes sero perdidos se um pedao do tecido for cortado.
- Legal - disse Leanna. Era bvio que Carlos estava outra vez dando aula, mas, por algum motivo, no lhe pareceu como das outras vezes. Agora era ela que queria 
saber tudo sobre as Filipinas.
- Posso te mandar meu cobertor Bontoc - ofereceu Carlos. - Minha tia-av o fez h muitos anos.  amarelo-limo e azul escuro. Muito bonito.
- Obrigada - disse Leanna. - Eu adoraria. - Mal podia acreditar que seu pai estava lhe dando um legado de famlia to precioso. Ele poderia guard-lo para um dos 
meninos ... mas o havia oferecido a ela.
- Posso mand-lo pelo correio amanh - disse Carlos gentilmente. - Mas acho que prefiro dar o cobertor pessoalmente. Voc j decidiu quando vem?
- No ms que vem, acho - disse Leanna sem muita certeza. No podia ir a San Diego agora e deixar Miguel. - Te ligo quando tiver certeza - acrescentou Leanna. Ela 
desligou, sentindo-se mal. Sua conversa com Carlos estava indo to bem. Por que ele tinha que estragar tudo pressionando-a a v-lo?
* * *
-  Miguel! - gritou Leanna quando a campainha tocou na tarde do sbado seguinte. Ela levantou-se rpido da mesa da cozinha, onde estava sentada com seus pais e 
com Kelli. - Vocs ficam. No saiam da!
- Estamos aqui esperando h dez minutos - disse a senhora Van Haver sorrindo, enquanto fechava sua revista. - Prometemos no nos mexer.
- Estamos ansiosos para conhecer Miguel - acrescentou o senhor Van Haver, fechando um livro sobre as Filipinas que estava lendo.
Leanna correu pelo corredor, pegando algumas das fotos penduradas pelo caminho. Como seus pais estavam em casa, ela no tinha podido substitu-las por outras, nem 
escond-las. O melhor que podia fazer era livrar-se das reveladoras fotografias da famlia no ltimo momento.
Escancarando o armrio do hall, Leanna jogou um monte de fotos no cho. Ento, voltou para o corredor e tirou o resto das fotografias que tambm jogou no armrio. 
Fechando a porta, Leanna rapidamente ajeitou seu suter de algodo cor-de-rosa, passou os dedos pelo cabelo e abriu a porta da frente.
- Oi, Miguel- disse Leanna, torcendo para que ele no notasse que ela estava quase sem ar depois da corrida pelo corredor. - Entre.
Leanna no pde deixar de olhar para Miguel enquanto ele entrava na casa. Seu cabelo negro, geralmente solto em mechas lisas, estava penteado para trs. Ele usava 
sapatos sociais pretos, uma camisa social branca e um smoking cinza prola com uma gravata- borboleta e um cinto pretos. Estava lindo. Mas por que estava de smoking 
para ir ao aniversrio da prima? 
- Voc ainda no est pronta? - perguntou Miguel franzindo a testa e olhando para o jeans preto e a blusa cor-de-rosa de Leanna.
-  porque voc chegou cedo! - disse Leanna sem saber o que dizer. - Voc disse que viria s quatro e 
meia.
- Tenho certeza de que disse quatro horas. - As sobrancelhas de Miguel se juntaram e ele se movia inquieto, parecendo desconfortvel.
- Oh ... ento acho que entendi mal.  minha culpa - disse Leanna tentando rir sem graa. - Tudo bem, estarei pronta em cinco minutos.
- Posso conhecer seus pais postios? - perguntou Miguel.
- Claro. - Leanna levou Miguel pelo corredor at a cozinha. No tinha certeza se queria bej-Io ou estrangul-lo. Por que ele no tinha avisado que a festa era 
formal? Ele agira como se ela fosse obrigada a saber, o que no fazia sentido, a menos que todas as festas filipinas fossem assim. E, se eram, por que Carlos no 
tinha avisado?
A famlia de Leanna olhou Miguel de cima abaixo quando entrou na cozinha. Seus pais e Kelli ficaram to surpresos quanto ela quando viram Miguel vestido daquele 
jeito. Felizmente, eram muito educados para dizer qualquer coisa.
- Este  Miguel Sarmiento - disse Leanna. - Miguel, voc j conhece Kelli. - Leanna olhou de forma penetrante para Kelli, esperando que a meia-irm se lembrasse 
da deixa.
- ai, Miguel - Kelli gaguejou. - Estes so meus pais, o senhor e a senhora Van Haver.
- Como esto? - perguntou Miguel, apertando primeiro a mo da senhora Van Haver, depois a de seu marido. Ele no desconfiou do fato de Kelli ter feito as apresentaes 
e Leanna.susprou aliviada.
- Belo smoking, filho - disse o senhor Van Haver, enquanto apertava a mo de Miguel e olhava confuso para o suter e o jeans de Leanna.
- Bom,  melhor eu subir e me trocar - disse Leanna. - Voc pode vir me ajudar, Kelli?
Kelli levantou-se rapidamente. - Sim, claro.
- Sente-se, Miguel- convidou a senhora Van Haver. - Vamos conversar um pouco.
Leanna tremeu. Era justamente esse o seu temor: que eles conversassem! E se Miguel tocasse no assunto da "famlia postia" - ou se a senhora Van Haver chamasse Leanna 
de "minha filha"? Mesmo assim, Leanna no tinha escolha. Ela tinha que se vestir o mais rpido possvel e esperar que nada horrvel acontecesse enquanto ela estivesse 
longe.
Fora da cozinha, Leanna sentiu Kelli pegar-lhe o brao. - Que roupa  essa de Miguel? - zombou Kelli. - Seus namorados tm um senso de moda muito estranho. Primeiro 
Scott com suas roupas de lojas de segunda mo e agora Miguel com um smoking! Por que ele est to elegante?
- No me pergunte. - Leanna correu, subindo dois degraus de cada vez. - Ele disse que iramos a uma festa de aniversrio. Achei que era na casa da garota.
- Se for, ela deve morar num palcio - disse Kelli, seguindo Leanna escada acima. - Que roupa voc vai usar?
- Queria usar alguma roupa sua, s tenho este vestido longo. - Leanna entrou no seu quarto e escancarou a porta do armrio.
Rapidamente, Leanna arrancou o jeans e o suter e colocou seu vestido longo. A saia de baixo era de tafet duro cor-de-rosa e o corpete e saia de cima eram feitos 
de renda branca.
- Estou parecendo uma dama de honra - reclamou Leanna. Era difcil andar com aquela saia rodada enorme. Ela tinha comprado o vestido para o concurso Miss Cocoa-Tropc 
Tan - antes de aceitar o convite de passar o vero com a famlia de Carlos. Se o tivesse usado no palco, teria se sentido uma princesa, mas naquela ocasio, no seu 
pequeno quarto, com os cabelos soltos, se sentia uma boba.
- Senta - disse Kelli. - Vou arrumar teu cabelo, enquanto voc se maquia.
Leanna sentou-se em frente ao espelho. - Por que Miguel no me avisou que precisava ir de longo  festa? Ou ele  muito complicado ou est tentando me envergonhar 
de propsito.
- Voto pelos dois - disse Kelli, puxando o cabelo de Leanna para cima e prendendo-o com grampos.
- Eu no quero saber mais nada de nenhum garoto. Voc acredita que Glenn Garrick me convidou para sair de novo? Bom, eu disse que de jeito nenhum. At que aparea 
algum decente, vou sair com minhas amigas.
- Melhor para voc - disse Leanna, esticando o brao para pegar um pincel de maquiagem. - Sei que h muitos bolhas por a... S espero que Miguel no seja um deles.
- A festa comea s seis e termina s nove, trarei Leanna para casa mais ou menos s onze - disse Miguel aos Van Haver. - Vamos jantar no Regency Hotel e a haver 
um baile com msica ao vivo.
- Parece maravilhoso - disse a senhora Van Haver, enchendo de novo o copo de Miguel com ch gelado. - Quando Leanna  disse que iria a uma festa de aniversrio, imaginei 
um bando de adolescentes comendo bolo e ouvindo CDs no poro da casa da sua prima.
- Mas Leanna no avisou que  a festa de dezoito anos de Roslia? - perguntou Miguel tomando um gole de ch.
Os Van Haver trocaram olhares. A senhora Van Haver encolheu os ombros. - O que h de to diferente num aniversrio de dezoito anos?
- Para os garotos nada - explicou Miguel. Obviamente, os Van Haver no conheciam nada sobre a cultura filipina, mas ele no se importava de explicar. Eles pareciam 
interessados, especialmente o senhor Van Haver. Miguel percebeu que ele estava lendo um livro chamado As crnicas filipinas.
- Quando uma garota faz dezoito anos, seu pai faz uma festa formal no melhor hotel da cidade - Miguel prosseguiu. - Originalmente, a idia era apresent-la aos homens 
solteiros da comunidade e esperava-se que ela se casasse num ano. No conheo muitas filipinas que sigam essa regra na atualidade, nem minha
prima. Mas mesmo assim os debuts so sempre uma grande festa. Acho que elas no querem perder essa oportunidade nem a tonelada de presentes.
- Voc diria que  uma importante tradio filipina? - perguntou o senhor Van Haver, escolhendo um pedao de doce da tigela sobre a mesa.
- Claro. Todas as garotas filipinas, assim como qualquer garota americana, espera ansiosamente por seu debut. Minha irm Carolina tem quinze anos - comeou a contar 
Miguel. - Ela  mais americana do que se tivesse cabelos loiros e sardas, mas at ela j est falando sobre onde far sua festa de debutante.
- Voc acha que Leanna gostaria de uma festa de debutante? - perguntou o senhor Van Haver, parecendo preocupado. - Gostaria que ela a tivesse se for parte da sua 
tradio. Mas no tenho certeza de que saberamos fazer tudo direito.
- Oh, no se preocupem com isso - disse Miguel em tom tranqilizador aos Van Haver. - O pai de Leanna vai cuidar de tudo. At l, ela estar morando com ele, no?
- O qu? - perguntou a senhora Van Haver. Miguel no entendeu por que ela tinha ficado to plida de repente.
O senhor Van Haver colocou o brao ao redor dos ombros da esposa e perguntou a Miguel: - Leanna falou sobre ir morar com o pai dela?
Miguel no entendia o que estava acontecendo. Num primeiro momento, os Van Haver pareciam pessoas normais e simpticas, um instante depois, estavam abraados e parecia 
que a senhora Van Haver  ia chorar.
Antes que Miguel pudesse responder, Leanna entrou na cozinha junto com Kelli. O vestido de Leanna flutuava ao redor dela como uma nuvem cor-de-rosa. O cabelo estava 
preso no alto da cabea com pentes com pedras imitando brilhantes. Ela estava maravilhosa.
Miguel se levantou da cadeira e quase fez uma reverncia para Leanna que parecia uma princesa. - Belo vestido - disse. - Mas voc no sabe que no pode estar mais 
bonita que a prpria debutante?
- Debutante? - repetiu Leanna, franzindo a testa.
- Minha prima Roslia. - Miguel no estranhou o fato de Leanna ter-se esquecido do nome de sua prima. Com todos os seus irmos e irms e agora sua prima, eram muitos 
nomes para lembrar.
- Leanna, Miguel, esperem aqui. Vou pegar a cmera. - O senhor Van Haver deu um tapinha no ombro da esposa como para tranqiliz-la. Miguel ainda no conseguia entender 
o porqu de a senhora Van Haver ter ficado to chateada.
Enquanto posava para algumas fotos com Leanna, Miguel pensava sobre os Van Haver. Eram uma famlia peculiar, tudo bem.
Pareciam ligados a Leanna, mas um pouco demais. Como se no quisessem que ela voltasse para sua famlia de verdade, os Malig.
Enquanto Leanna se despedia dos Van Haver, Miguel decidiu esquecer a famlia postia superprotetora, no queria estragar a grande noite mgica que tinham pela frente.

Treze
- Ainda no posso acreditar que o manobrista colocou o seu carro no estacionamento - disse Leanna, enquanto ela e Miguel entravam no luxuoso saguo do Regency Hotel 
em So Francisco. Era de longe o lugar mais chique que ela tinha visto. Todos os elevadores eram de vidro e pedras brilhantes, que pareciam diamantes, pendiam dos 
lustres. Leanna no se sentia mais desconfortvel na sua roupa de concurso. S desejava ter longas luvas brancas e uma coroa para combinar.
Miguel riu. - Meu carro foi provavelmente uma grande decepo depois de todos aqueles BMWs na nossa frente.
Leanna riu tambm. O olhar do manobrista era impagvel. Por alguns segundos, ela teve certeza de que o homem ia pedir a Miguel para estacionar o seu velho carro 
todo batido.
- Olha, ali est minha irm Carrie - disse Miguel, apontando para uma bonita garota morena. - Vem, vou te apresentar a ela. Talvez ela saiba em que salo  a festa.
Eles andaram at a garota magra parada entre duas portas douradas. Ela vestia um longo de seda preta e seu cabelo era muito curto, com exceo da frente, onde era 
espetado para cima.
"Esta  a irm de Miguel?", Leanna estava surpresa como algum que pertencia a uma famlia ultraconservadora como a de Miguel podia usar um corte de cabelo to ousado.
- Ei, Carrie - disse Miguel. - Esta  Leanna Malig.
- Prazer em conhec-Ia, Leanna. - Carrie esticou o brao para apertar-lhe a mo. Suas unhas estavam pintadas de um roxo escuro, quase preto. - Eu te apresentaria 
o meu acompanhante, mas ele est no banheiro.
Naquele momento, uma das portas douradas se abriu e um rapaz muito bonito saiu, como que deslizando. Deslizando era a palavra certa, pensou Leanna; seu andar gracioso 
e elegante era to familiar para Leanna quanto seu cabelo na altura dos ombros e seu nico brinco prateado. Ela os via diariamente na escola.
"O que Eddie Alvarez est fazendo aqui?" Eddie no fazia parte da turma de Leanna na Bayside Acaderny, mas ela o conhecia. Rapidamente, Leanna virou-se de costas, 
esperando que Eddie
passasse por ela sem a reconhecer.
- Eddie! - chamou Carrie. - Venha c e conhea meu irmo e sua acompanhante.
Leanna queria que um buraco se abrisse para desaparecer. "Carrie estava com Eddie?" Eddie tinha participado de vrios desfiles com Leanna, sabia o nome dela. Talvez 
ela devesse correr para o banheiro feminino e ficar l at Carrie e Eddie irem embora. Mas era tarde demais, Eddie estava parado ao lado de Carrie e, pelo jeito 
que sorria para Leanna, ela sabia que estava perdida.
- Eddie Alvarez, este  meu irmo Miguel- disse Carrie. Os rapazes trocaram um aperto de mos. - E esta ...
- Eu te conheo - disse Eddie. - Voc freqenta Baysde, certo? Seu nome  Leanna ... Leanna ... Leanna sentiu que suas pernas fraquejavam. "No fale meu nome", 
rezou. "No diga Leanna Van Haver!"
Eddie sorriu em tom de desculpas. - Desculpe, no me lembro de seu sobrenome.
- Leanna Malig - Leanna quase sussurrou. Esta foi por pouco!
Mas Leanna ainda no estava fora de perigo. Agora Carrie a olhava com uma expresso de fascnio.
- Voc freqenta Bayside? - perguntou Carrie. - O que voc , atriz? Cantora? Voc j apareceu na TV?
- Por que Leanna teria aparecido na TV? - interrompeu Miguel, olhando de Leanna para Carrie com uma expresso confusa.
- Estou faminta! - exclamou Leanna, tentando mudar de assunto. - Vamos procurar a festa, o jantar no vai ser servido s seis?
- Sim. Acho que  por aqui - disse Miguel seguindo um longo corredor acarpetado, mas ainda parecendo confuso. Inclinando-se para mais perto de Leanna, perguntou: 
- Que histria  essa de voc aparecer na TV?
- Eu no. - Leanna riu nervosamente. - Alguns dos garotos que freqentam Bayside querem ser atores, mas no  meu caso.
- No, Leanna faz parte da diviso de modelos, junto comigo - interrompeu Eddie. Ele e Carrie haviam seguido Miguel e Leanna pelo corredor. - Bayside  como uma 
faculdade, sabe? Pode-se ter aula sobre diferentes assuntos - cinema, teatro, dana  - mas voc escolhe uma rea de concentrao, um tipo de especializao. Escolhi 
modelo porque no sou muito bom em memorizar textos.
- Modelo e dana.  bem legal - disse Miguel numa voz agradvel. - No sei por que pensei que Bayside era uma escola tradicional rigorosa. - Os olhos de Miguel estavam 
frios quando encarou Leanna.
- Eu disse que era difcil entrar em Bayside, e ! - Leanna disse bruscamente, com os olhos faiscando. - Voc tem que ter notas altas e talento! Nossas aulas de 
artes teatrais so adicionais s aulas regulares, como as de matemtica e cincias. Passamos o dobro do tempo na escola e trabalhamos o dobro tambm.
Miguel parecia espantado.
- Isto  muito legal, Leanna! - elogiou Carrie. - Meu irmo acha que antropologia  a nica carreira respeitvel no mundo.
Carrie continuou falando, contando a Leanna que ela queria ter uma loja de roupas. Mas Leanna no prestava ateno, continuava observando Miguel, enquanto ele andava 
devagar, olhando para a frente.
Na entrada da festa, um homem mais velho com um terno preto pegou os convites deles e checou uma longa lista. - Mesa vinte - disse, apontando-lhes a porta.
Miguel segurou a porta aberta para Leanna e eles entraram num grandioso salo de baile. Metade do piso era de madeira polida. No fundo do salo, numa plataforma 
elevada, uma orquestra tocava msica suave. Leanna nunca tinha estado em uma festa de aniversrio como aquela antes. Uma vez, Glenn Garrick tentou impressionar a 
todos contratando um conjunto para sua festa, mas era um conjunto de quatro garotos com violes e um teclado. Esta orquestra tinha violinos, um piano e um violoncelo!
No outro lado do salo, sobre um luxuoso tapete azul escuro, havia dezenas de mesas redondas cobertas com toalhas brancas de linho, copos de cristal e talheres de 
prata reluzentes. Sentadas s mesas, conversando e rindo, enquanto os garons enchiam seus copos, havia pessoas de todas as idades, quase todas filipinas.
"Tudo  to lindo. Mas no fao parte disto. Sou uma impostora ..."
- No, Eddie - riu Carrie, distraindo Leanna de suas preocupaes.
- Temos que entrar na fila de cumprimentos primeiro.
Eddie levantou-se da cadeira. - Voc tem que me desculpar - disse. - No sei nada sobre o cerimonial dos aniversrios de dezoito anos.
- Parece muito com o que voc me contou sobre as festas de quinze anos no Mxico - disse Carrie, pegando no brao de Eddie. Ela olhou para Leanna. - Voc sabia que 
se fssemos mexicanas no teramos que esperar at os dezoito anos para ter uma festana como esta? Alis, como sou americana agora, talvez possa convencer meus 
pais a fazer uma festa de dezesseis anos em vez de um debut como este.
Miguel ofereceu o brao a Leanna, ignorando a voz da irm.
- Vamos, Leanna. Vamos cumprimentar a aniversariante.
Leanna ficou entre Miguel e Carrie, enquanto se aproximavam de uma fila de pessoas vestidas elegantemente. Convidados passavam e cumprimentavam. "Isto parece um 
casamento" pensou Leanna. Ela queria que Miguellhe dissesse o que deveria fazer; mas claro que ele achou que ela j sabia.
- Apenas cumprimente Rosla, o irmo dela e seus pais com um aperto de mo - Leanna ouviu Carrie dizer a Eddie. - Mas, quando voc cumprimentar os avs e bisavs 
dela, faa isto - disse Carrie pegando a mo direita de Eddie e encostando-a na sua testa. - Colocar a mo de uma pessoa mais velha em sua cabea mostra respeito.
Eddie apertou a mo de Roslia. Ela usava um vestido longo branco e luvas compridas at os cotovelos. Ento, Leanna o observou apertar a mo de uma pequena senhora 
de cabelos grisalhos e gentilmente encost-Ia em sua testa. O rosto da pequena mulher abriu-se num sorriso radiante.
Leanna sentiu-se uma boba. Bem, se Eddie podia fazer aquilo, ela tambm poderia. Ela trocou apertos de mo com os membros mais jovens da famlia de Roslia e depois 
fez a mo da velha senhora tocar-lhe a testa. Foi recompensada com um generoso sorriso. A velha senhora disse algo em tagalo a Miguel que pareceu faz-lo corar.
- O que ela disse? - perguntou Leanna, enquanto eles se sentavam  mesa.
- Nada - respondeu Miguel tomando um rpido gole de gua e ficando ainda mais corado.
- Escutei o que ela disse. - Carrie desdobrou seu guardanapo de pano, colocou-o no colo e sorriu provocativamente para o irmo. - A bisav disse que voc era uma 
garota simptica e que Miguel deveria se casar com voc.
- Que histria  essa de meu primo mais novo se casar? - perguntou com uma voz provocadora de mulher. - De jeito nenhum! No, a menos que eu me case antes!
Uma filipina de cabelos negros lisos, na altura dos ombros, sentou-se na cadeira vazia ao lado de Miguel. Usava um lindo vestido de renda azul brilhante.
- Esta  minha prima Christina. Ela est no segundo ano da faculdade na Universidade da Califrnia em Berkeley - acrescentou Miguel. - Faz especializao em Histria.
- Leanna Malig e Eddie Alvarez - disse Miguel a Christina. - So modelos.
- Que legal! Nunca conheci nenhum modelo antes. Como  estar sempre na frente de uma cmera?
O queixo de Miguel caiu e Leanna no conseguiu conter o riso. Ela sabia que ele esperava que sua prima mais velha pensasse que ser modelo era to frvolo quanto 
ele achava.
Depois que Leanna acabou de contar para Christina como era divertido ser modelo, todos comearam a comer. Foi servido um aperitivo frio de camaro e depois uma salada 
verde. Mas Miguel no tocou em nenhum dos dois.
- o prximo prato  lchon - anunciou Carrie, cutucando Miguel nas costas. - Acho que Eddie deveria se servir primeiro, voc no acha, Miguel?
Lchon  um prato servido sempre em comemoraes flipinas. Dora tinha feito um na primeira noite de Leanna em San Dego. Leanna sorriu, lembrando-se de como ficara 
confusa quando Dora a convidou a se servir primeiro.
- No sei se estou pronto para isso - disse Eddie desconfiado. Ele olhou em volta da mesa. Todos riam. - Alis, o que  lchon?
Carrie comeou - ...
- Acho que Leanna deveria explicar o que  lchon - disse Miguel alto, cortando a resposta de sua irm.
Aquilo deixou Leanna brava, pois estava na cara que Miguel estava tentando peg-la numa armadilha. Provavelmente estava desconfiado de que era uma impostora. Bom, 
Miguel Sarmiento ia ter uma surpresa.
Leanna sorriu gentilmente, enquanto comeou a explicar: - Lechn  um porco assado inteiro que  servido em todas as festas filipinas. Numa festa grande como esta, 
provavelmente haver um lechn para cada mesa.  uma tradio convidar o dayo - ou estrangeiro - para servir-se primeiro.  uma grande  honra.
- Legal. Adoro porco assado - disse Eddie, parecendo aliviado.
Leanna olhou firme para Miguel, que por um instante sustentou o olhar. Leanna sentiu-se exultante. Ela sabia que no devia dizer a Eddie como tinha que servir-se 
primeiro. Esta era a brincadeira, o motivo pelo qual todos estavam rindo ao oferecer-lhe a primeira poro.
Dois garons se aproximaram da mesa deles. Um carregava uma mesa dobrvel e o outro, uma grande bandeja com uma tampa de prata. Eles colocaram a bandeja na mesa 
dobrvel e levantaram a tampa. Um porco assado inteiro com a pele dourada crocante sorria para eles com uma brilhante ma vermelha  enfiada na boca.
- V em frente, Eddie - apressou-se em dizer Carrie. - Sirva- se primeiro.
Eddie pegou um garfo e uma faca e se levantou.
- No, no - disse Leanna, olhando de esguelha para Miguel. - Voc no pode usar talheres.
Miguel ficou surpreso. Leanna sorriu satisfeita, acabara de provar a Miguel que sabia o que estava fazendo. No era uma dayo nesta festa!
Eddie levantou as sobrancelhas. - Como posso cort-lo sem nada?
- Adivinhe - disse Christina rindo.
Eddie olhou o porco, sua pele dourada e macia. - O que tenho que fazer? - perguntou. - Vamos, Carrie, me ajude.
Leanna resolveu ajud-lo. -  fcil- disse. - Se voc tirar
toda a pele, o garom corta a carne.
- Obrigado. - Eddie tentou puxar a pele perto do ombro do porco, mas nada aconteceu.
- A pele est muito grudada! - exclamou Eddie. Os primos de Miguel caram na risada.
- Puxe a orelha - disse Miguel, com um sorriso maroto. O corajoso Eddie puxou a orelha e conseguiu tirar a pele. Todos aplaudiram e Eddie sentou-se triunfantemente, 
enquanto os garons entravam em ao.
Leanna no conhecia Eddie muito bem, mas estava gostando dele. Cada vez que algo diferente acontecia, Carrie explicava cuidadosamente o que tinha que ser feito a 
Eddie. Leanna prestava muita ateno, evitando assim maiores embaraos.
Depois do jantar, comeou o baile. Quando a orquestra comeou a tocar uma msica lenta e romntica, Miguel ofereceu a mo a Leanna. Ela o seguiu at a pista de dana 
e colocou os braos ao redor de seu pescoo. Leanna fechou os olhos, movendo-se ao som da msica suave e romntica.
- Ento, voc  modelo - Miguel sussurrou em seu ouvido.
Os olhos de Leanna se abriram. - Voc tem algum problema com isto? - perguntou na defensiva, afastando-se dele.
- Leanna, escute - a voz de Miguel era to delicada e gentil que ela relaxou novamente em seus braos. - No me importo se voc quer ser modelo. S quero que seja 
feliz. Fiquei chateado porque achei que voc tinha mentido sobre sua escola. Ento comecei a pensar sobre o que mais voc teria mentido.
- Nunca menti sobre Bayside - disse Leanna. - Falei que era uma escola particular e diferente e . Nunca disse que no era uma escola de artes teatrais.
- Eu sei - disse Miguel, puxando-a para mais perto. -  s que eu ... eu fiquei muito magoado com uma garota que mentiu para mim no passado ...  difcil para mim 
aprender a confiar de novo - disse Miguel respirando profundamente. - Voc me desculpa?
- Sim - sussurrou Leanna, um frio percorrendo de novo seu estmago. "Mas ser que voc vai me perdoar quando souber a verdade?", ela se perguntou.
- Nunca mentirei para voc - prometeu Miguel perto do cabelo dela.
O corao de Leanna ficou apertado. Esta no era uma boa hora para contar-lhe a verdade sobre os Van Haver. Se Miguel tinha ficado maluco s de pensar que ela pudesse 
ter mentido, o que faria quando soubesse que de fato ela mentira?

Catorze
- Oh, era a festa de dezoito anos de uma garota - Carlos se desculpou ao telefone na manh seguinte. - No sabia que voc ia a um baile de debutante. Queria que 
voc me tivesse dito. Eu poderia ter te explicado tudo.
- Ento todos os filipinos fazem isto? - perguntou Leanna, mudando o fone para o outro ouvido e esticando o brao at um armrio mais alto para pegar sucrlhos. 
- Por que voc no falou disso antes?
- No achei que voc estivesse interessada - respondeu Carlos.
- Voc nunca ligou para nenhum costume filipino antes.
- Bom ..., esse  diferente - disse Leanna, despejando um pouco de cereal numa tigela. - Que garota da minha idade no ficaria excitada com a oportunidade de se 
vestir como uma princesa e ter uma grande festa? Posso ser moderna, mas no sou burra.
Ela ouviu a risada gostosa do pai. - Acho que no sei muito sobre garotas adolescentes - ele admitiu. - Estou mais acostumado com meninos pequenos. Mas agora que 
estamos morando mais perto, espero que isso mude. - A voz de Carlos tornou-se mais sria. - Sinta-se  vontade para vir nos visitar a qualquer
hora, Leanna. So s duas horas de vo. Voc nem precisa passar a noite aqui se no quiser.
Enquanto seu pai falava, Leanna pensava no convite. Conhecer os parentes de Miguel na noite anterior e ver como eram ligados fez com que Leanna percebesse a falta 
que sentia de Carlos e dos meninos. Visitar os Malig tambm seria uma boa oportunidade para praticar seu tagalo e para aprender coisas sobre as Filipinas que no 
eram encontradas nos livros.
- Bom, estou ocupada nos prximos dois fins de semana - disse Leanna, olhando o calendrio de parede perto do telefone.  - Depois  Halloween.
- Oh, os garotos adorariam passar Halloween com voc. No comemoramos nas Filipinas, ser a primeira vez que eles brincaro de doces e travessuras. Eles poderiam 
ter algum lhes ensinando
como fazer.
Leanna ficou tentada. Seria divertido ver seus pequenos meio irmos fantasiados. - De que eles vo se fantasiar? - perguntou.
- No tenho certeza. Dora quer que eles se vistam de piratas ou de fantasmas, mas os meninos querem ser - como eles chamaram aquilo? Teenage Troll Troopers.[uan 
quer ser Jimmy, o Trooper Azul, e Toms quer ser Kirby, o Trooper Roxo.
- Teenage Troll Troopers  um desenho animado. Todas as crianas assistem - explicou Leanna.
- Bom, vamos ter um Halloween americano e, no dia seguinte, vamos comemorar a Festa de Todos os Santos - explicou Carlos -, um dos mais importantes feriados nas 
Filipinas.
Leanna procurou novembro no calendrio. Primeiro de novembro, um dia depois de Halloween, uma segunda-feira! Se aceitasse o convite de Carlos, poderia participar 
de uma festa filipina e faltar um dia na escola!
Ela perderia a festa de Halloween de sua amiga Sara, quando tinha planejado apresentar Miguel a todos os seus amigos.
"Mas sou filipina", lembrou-se Leanna. "E a famlia  mais importante que os amigos."
- Adoraria ir - disse Leanna sentindo que de fato era verdade.
No dia seguinte, Leanna usou seu terno na escola e colocou uma flor vermelha de seda no cabelo solto. Ela tinha levado seu livro de tagalo para estudar durante o 
almoo e esperava que o fato de estar vestida a carter a ajudasse a aprender mais depressa.
Quando Leanna colocou sua bandeja ao lado da de Kelli, as outras garotas na mesa de almoo olharam para ela e sorriram.
Wendy, DeShaun e Sara eram amigas de Leanna e de Kelli desde o primeiro ano.
- Ento, como foi seu grande encontro com Miguel? - perguntou DeShaun, mordendo uma cenoura.
- Foi fantstico! - disse Leanna desembrulhando um canudinho e colocando-o dentro da caixinha de leite. - O hotel parecia um palcio e a msica era tima.
- Quem era o conjunto? - perguntou Sara. Desde que raspara a cabea, Sara s se interessava por msica punk e heavy metal dos anos 70.
- Era uma orquestra, boba - respondeu Leanna. - E danar com Miguel foi o melhor de tudo. Foi to romntico!
Wendy enrolou um pouco de espaguete num garfo plstico. - Voc realmente gosta desse cara, no? Ento ... quando vamos conhecer o Senhor Perfeito?
Antes que Leanna pudesse responder, Kelli ps sua lata de soda na mesa com um estrondo. - Conheci Miguel e ele est longe de ser perfeito. Voc no disse que ele 
morava num barraco de grama nas Filipinas e caava bfalos na gua?
- Ele caa bfalos? - perguntou DeShaun acusadoramente. Ela era vegetariana e muito preocupada com os direitos dos animais. - Talvez voc deva pensar duas vezes 
sobre esse rapaz, Leanna.
- Miguel no caa bfalos! - disse Leanna lanando um olhar furioso para a meia-irm. Qual era o problema de Kelli?- A famlia de Miguel tinha um bfalo. Era um 
bicho de estimao.
- Desculpe - disse Kelli com voz fingida. - Devo ter entendido mal.
O sangue de Leanna ferveu. Ela tomou um rpido gole de leite para evitar brigar com Kelli. Leanna no queria discutir com ela na frente de todo mundo na lanchonete.
Sara olhou impacientemente para Kelli e Leanna. - Bem, acho que teremos que decidir sozinhas se Miguel  um cara timo ou um idiota. Voc vai Iev-lo a minha festa 
de Halloween, no?
Leanna quase engasgou com seu leite. - Na verdade, preciso falar com voc sobre isto - disse. - Sara, eu ...
- Leanna no comemora mais festas americanas como Halloween - interrompeu Kelli. - Ela foi convidada para uma festa filipina no mesmo fim de semana. Ela vai te dar 
o cano, Sara.
Leanna estava chocada demais com as palavras de Kelli para perceber a reao de Sara. Se Sara tivesse ficado magoada ou brava, Leanna poderia se desculpar mais tarde. 
Nesse momento, ela tinha que descobrir o que estava havendo com Kelli.
- Posso falar com voc em particular? - perguntou Leanna com os dentes cerrados. Sem dar a Kelli chance de responder, pegou-a pelo brao e praticamente a arrastou 
para fora da lanchonete.
- Por que voc est me provocando? - perguntou Leanna, quando ela e Kelli estavam sozinhas num banheiro prximo. - Voc est fazendo Miguel parecer um grande idiota. 
Voc no sabe nada sobre ele ou sobre as Filipinas!
- E voc sabe? - Kelli jogou para trs seu longo cabelo loiro.
- Eu achava que voc fosse feliz sendo americana at que seu suposto pai se intrometeu. A voc correu para San Diego e, quando voltou, tinha um namorado filipino 
e agora acha que tambm  filipino.
- Filipina, no filipino. - Leanna encostou-se numa pia. - Homens so filipinos. Mulheres so filipinas. E eu sou uma filipina ... meio.
- V o que estou dizendo? Voc acha que  especialista nas Filipinas. - O rosto de Kelli estava vermelho de raiva. - Voc no liga para mais ningum, a no ser para 
os Malig e para Miguel. Est deixando de lado todos os que se importam com voc. Scott, Sara, mame, papai, eu ...
- Calma, relaxe - disse Leanna, entendendo de repente porque Kelli estava chateada. Ela esticou o brao at o outro lado da pia e pegou na mo de Kelli. - No vou 
deixar vocs - disse Leanna delicadamente. - S vou visitar os Malig. Voc est exagerando.
- No sou a nica - disse Kelli com voz trmula. - Mame tambm est muito chateada porque voc tirou todas as nossas fotos de famlia nas duas vezes em que Miguel 
veio em casa. Ela pensa que voc tem vergonha de ns. Voc no notou o interesse sbito de papai com as Filipinas? Ele acha que se acompanhar essa ... essa sbita 
obsesso sua, voc no nos deixar!
***
Kelli de repente pegou um punhado de toalhas de papel do toalheiro. Enterrou seu rosto nelas e apoiou-se na parede chorando.
- Vamos, Kelli. Voc sabe que voc, mame e papai sero sempre parte da minha vida. Mas sou filipina tambm e no posso mais ignorar os Malig.
Leanna parou de falar quando a porta do banheiro se abriu. Wendy entrou, lanando um rpido olhar para Kelli, que ainda estava curvada contra a parede. Wendy voltou-se 
para Leanna.
- O que est acontecendo? - cochichou Wendy. - Por que Kelli est chorando?
- No estou chorando - disse Kelli com um tom de voz gelado.
- Meus olhos esto lacrimejando. Acho que minhas alergias esto se manifestando. - Kelli endireitou os ombros e jogou o bolo de papel na cesta de lixo. - Vou  enfermaria. 
Estou me sentindo mal.
Leanna queria poder dizer ou fazer algo para que Kelli se sentisse melhor. - Conversaremos mais em casa - disse Leanna, enquanto se afastava para o lado para dar 
passagem a Kelli.
Kelli parou na porta. - Apenas responda isto, Leanna. Miguel ama voc ou a filipino - desculpe, filipina - que voc est fingindo ser? A menos que voc pretenda 
dar as costas  sua famlia americana, voc vai ter que contar a ele a verdade sobre ns. Se ele realmente te ama, aceitar tudo sobre voc. Ele no vai querer um 
relacionamento baseado numa mentira.
Enquanto a porta se fechava atrs de Kelli, Wendy batia nas costas de Leanna. - No se preocupe com a Kelli. Ela s est com cimes porque no tem namorado e voc 
tem.
Leanna concordou. - Pode ser - ela disse. Mas sabia que esse no era o problema. Leanna detestava ter que admitir, mas Kelli estava certa. Ao mentir para Miguel, 
Leanna estava rejeitando sua famlia americana e o valor filipino dela de honestidade. Tinha que achar um jeito de contar a verdade para Miguel.
* * *
Leanna no viu Miguel de novo at a noite de sbado. Ele estava ocupado trabalhando no cinema e, apesar de ter ligado para ela algumas vezes, no teve muito tempo 
para v-la.
"Vou contar para ele pessoalmente", pensou Leanna.
Naquela noite, Miguel a levou ao Caf Manila, onde os pais dele trabalhavam. Leanna vestiu o terno amarelo de novo, soltou o cabelo e colocou a flor vermelha de 
seda atrs da orelha.
- Voc est linda - disse Miguel ao abrir a porta do carro para ela. - No era este o vestido que voc estava usando no dia em que nos conhecemos?
Leanna sentou-se no banco da frente. - No achei que voc se lembraria.
Miguel entrou no carro e colocou o cinto de segurana. - Sabe o que pensei na primeira vez em que te vi? Tenho que conhecer esta linda filipina.
- Legal - ela disse baixinho. Ela tinha vestido o terno porque sabia que Miguel tinha gostado. Acreditava que se estivesse bonita ele no ficaria maluco quando ela 
lhe contasse a verdade sobre sua famlia.
- Deve ser to difcil morar com os Van Haver. No d para ser mais americano do que eles. Voc deve sentir muita falta das coisas filipinas. - Miguel tirou uma 
das mos do volante e gentilmente pegou a mo dela. - Aposto que voc sente muito a falta de seus pais. Quando voc vai para casa?
- No fim de semana de Halloween - disse Leanna. - Isto  uma das coisas sobre as quais queria conversar com voc. Os Malig so ...
- Talvez eu possa ir com voc! - Miguel gritou excitado.
- No! - interrompeu Leanna. - Quero dizer,  s famlia.
- Entendo - disse Miguel, entrelaando seus dedos aos dela. - Alm disso, seu pai  to rigoroso, provavelmente no aprovaria que voc levasse um rapaz para casa.
Leanna tremeu. Por que Miguel se lembrava de tudo o que ela tinha dito? Isso tornava mais difcil fazer o discurso que ela tinha ensaiado.
- Miguel - comeou -, nem todos que parecem filipinos seguem todas as tradies e costumes.
- Eu sei. - Ele virou o volante, dobrando uma esquina. - s vezes fico to bravo com meus irmos mais novos. Os cortes de cabelo, as roupas deles ... No acho que 
tenham personalidade prpria. Parece que s fazem o que seus amigos americanos acham legal.
- Bom,  divertido fazer coisas com os amigos - disse Leanna, esquecendo de seu discurso. - Adoro desfilar, porque eu e Kelli desfilamos juntas.
Miguel deu uma risada curta. - No me surpreende que Kelli seja modelo.
- O que isso significa? - perguntou Leanna, soltando sua mo da de Miguel.
- Tudo o que eu quis dizer  que Kelli  alta e bonita, ento  de esperar que ela goste de ser modelo. Mas voc simplesmente no faz o tipo.
- Que tipo  esse? - disse Leanna indignada. - Baixinha e feia?
- Voc sabe que no  baixinha e feia. - Miguelligou o rdio que comeou a tocar msica country. - Que tal um pouco de msica?
- Detesto esta estao!
Miguel desligou o rdio. - Qual  o problema, Leanna? Por que voc est procurando briga? - ele perguntou confuso. - O que fiz para te chatear?
- Se ligasse para mim, aceitaria tudo sobre mim ... at ser modelo e meus amigos.
- E eu aceito. - Os olhos de Miguel estavam na rua. Sua mandbula pareceu contrair-se. - S no entendo.
- Escuta, tem um desfile de moda no shopping sbado que vem. - Leanna respirou fundo. - Eu e Kelli vamos participar, junto com alguns de nossos amigos de Bayside. 
Eu gostaria que voc viesse e assistisse.
- Talvez tenha que trabalhar. - Miguel entrou num estacionamento cheio. - Chegamos. Caf Manila. Me ajude a procurar uma vaga boa.
Sentindo-se desapontada, Leanna percebeu que Miguel no tinha dito se ia ou no ao desfile. "Bom, estamos quites. Tambm no contei a ele sobre a minha famlia."
"O desfile de modas ser o teste", decidiu Leanna. "Se Miguel aparecer, prometo contar-lhe sobre os Van Haver depois do desfile. E no vou fraquejar, no importa 
o que acontecer!"
Enquanto atravessavam as portas duplas para entrar no restaurante onde os pais dele trabalhavam, Leanna sentiu-se melhor, mais relaxada. Ela ia contar a verdade 
a Miguel, s no seria hoje.
- Este lugar est lotado - ela disse.
Miguel foi at o comeo da fila. - Ns no teremos que esperar por uma mesa. Meus pais esto nos aguardando. 
Miguel deu o seu nome para a hostess filipina. Ela os levou para uma mesinha no centro do salo, perto de um buffet em forma de U.
- Mabhay! Bem-vindos ao Caf Manila - disse uma garonete ruiva. - Temos uma Fiesta Buffet especial hoje, ou vocs preferem ver o cardpio?
- Vou querer o buffet - decidiu Leanna.
- Eu tambm - concordou Miguel. -  a melhor maneira de experimentar um monte de pratos diferentes, e podemos repetir.
- timo! - Leanna foi para a ponta do buffet e pegou um prato vazio. - Gutom na ako.
- Tambm estou com fome. Ei, voc andou treinando tagalo! - disse Miguel orgulhoso, enquanto se servia de uma colherada de arroz fumegante.
Enquanto dirigia em direo  casa dos Van Haver depois do jantar, Miguel ficou quieto. Estacionou o carro e virou-se para Leanna. Sob a luz fraca da garagem dos 
Van Haver, seu rosto eram linhas e sombras escuras.
- Leanna - ele comeou -, preciso te dizer uma coisa.
Leanna gelou, tremendo por dentro. Miguel parecia to srio. E se quisesse romper com ela? E se ele j tivesse pensado sobre o desfile de modas e tivesse decidido 
que no estava interessado? - No vou mentir para voc, Leanna.
Ela abaixou o olhar. Poderia alguma vez dizer o mesmo a ele? - O fato de voc ser modelo no me incomoda. Mas Kelli Van Haver me incomoda. - Miguel balanou a cabea. 
- No gosto de garotas artificiais e superficiais como ela. E no entendo como voc gosta dela. Mas estou disposto a tentar. - Ele tirou uma mecha de cabelo da testa 
dela e acrescentou. - Talvez possamos todos sair juntos depois do desfile, para nos conhecermos melhor.
O corao de Leanna deu um salto. Ela se inclinou para beij-lo, mas o cinto de segurana a deteve. Miguel deu uma risadinha e se moveu para solt-lo. Ento, estavam 
nos braos um do outro.
- Mahal kita - Miguel sussurrou, pouco antes que seus lbios encontrassem os dela.
"Tenho que lembrar de perguntar ao Carlos o que isto significa", pensou Leanna. Fechando os olhos, ela desejou que o beijo de boa noite deles pudesse durar para 
sempre.

Quinze
Na tarde do sbado seguinte, Miguel se dirigia desconfortavelmente para o espao central do shopping center.
O Arden Fair MaU era um monstro de ao e de vidro. Dentro dele, no era possvel saber em que ano se estava, em que pas ou at em qual estao do ano. Grandes flocos 
de neve prateados pendiam do teto e uma faixa sobre o palco central anunciava Desfile da Coleo de Inverno, apesar de ainda ser uma semana antes de         Halloween 
e a temperatura externa ser de quase 27 graus.
As cadeiras dobrveis perto do palco estavam sendo rapidamente ocupadas por garotas adolescentes. Algumas estavam com as mes e avs. Os nicos homens na audincia 
eram um punhado de pais, avs e irmos caulas. Miguel se sentiu como uma verruga gigante no rosto de algum.
Essa no era a sua idia de diverso. Mas a sua presena no desfile parecia ser muito importante para Leanna. Por isso ele queria apoi-la e saud-la.
"E ser legal com Kelli Van Haver depois. No se esquea dessa parte." Miguel fez uma careta. Planejava dar uma chance a Kelli, mas ser que ela lhe daria uma tambm? 
Na nica vez em que ele passara mais do que cinco minutos com Kelli, ela deu a impresso de gostar dele. Miguel temia que Kelli fizesse Leanna voltar-se contra ele 
e contra tudo que fosse filipino, como os amigos de sua irm haviam feito com ela.
Miguel achou uma cadeira no fundo, perto do fim da passarela coberta por um tapete vermelho, que saa do palco central. Ele se acomodou desconfortavelmente na ponta 
da cadeira.  sua esquerda, duas garotas muito jovens falavam alto de seus batons favoritos. Miguel levantou os olhos. Daria qualquer coisa para ver um rosto conhecido 
agora. De preferncia, um rapaz com quem pudesse falar de qualquer coisa, menos de maquiagem e roupas.
Como que em resposta ao seu passado, um rapaz alto e magro, mais ou menos da idade de Miguel, saiu de trs da cortina dourada brilhante. Estava todo de preto, exceto 
pelo colete listrado cinza e a gravata vermelho vivo. Carregou uma cmera de vdeo e um trip para o fim da passarela e comeou a mont-los.
Os cabelos loiros e os culos de aro metlico do cameraman lhe pareceram familiares, mas Miguel no conseguia se lembrar de onde.
Depois de montar a cmera, o rapaz loiro olhou para o pblico. - Ei, cara - disse dirigindo-se a Miguel -, voc pode dar uma olhada no meu equipamento por um minuto? 
- Claro - Miguel concordou alegremente. "Uau, algo para fazer."
O loiro alto atravessou rapidamente a passarela e desapareceu atrs da cortina. Um momento depois, ele reapareceu, carregando uma grande caixa de papelo branca 
e um spot.
- Obrigado, cara - disse a Miguel enquanto punha a caixa no cho e comeava a arrumar a lmpada. - Vou filmar o desfile, assim as garotas podem assistir depois e 
ver o que fizeram bem e o que precisam melhorar.
Miguel se levantou e apoiou o cotovelo na passarela, que ficava na altura de seu queixo. - Voc  fotgrafo profissional?- perguntou. - Voc parece meio jovem para 
ter um emprego em tempo integral.
- Isso  s enquanto estou no colgio. - O cameraman acabou de ajustar sua lmpada e sentou-se no tapete vermelho. - No tenho certeza se quero ser diretor ou cameraman, 
mas vou trabalhar atrs das cmeras. Voc tambm se interessa por cinema? 
- Adoro assistir a filmes - respondeu Miguel - mas nunca pensei em faz-los. Trabalho no Cinedome, ento consigo ver todos os filmes novos assim que so lanados.
O rapaz estalou os dedos. - Eu bem que te achei familiar! Voc no estava l ontem  noite? Te vi  esfregando o cho.
- Sim, era eu - admitiu Miguel. - Mas no pretendo passar a vida inteira esfregando o cho e vendendo pipocas. Na verdade, quero estudar antropologia.
- Tipo desenterrar ossos antigos e coisas assim?
- Talvez, mas tambm me interesso por povos modernos que ainda vivem h milhares de anos. Nas Filipinas, onde nasci, h muitas tribos que ainda vivem desse jeito. 
Os Mangyans, os Ati, os Tasaday ...
- Ouvi falar nos Tasaday. Daria tudo para estar na equipe que pela primeira vez filmasse uma tribo desconhecida. - Seus olhos azuis brilharam por trs das lentes 
dos culos. - Talvez possamos trabalhar juntos algum dia.
- Talvez. - Miguel sorriu e dirigiu-se de volta para sua cadeira.
- No, estou falando srio. - O garoto loiro reclinou-se e esticou a mo. - Meu nome  Scott. Scott Carteret.
- Miguel Sarmiento. - Miguel apertou a mo de seu novo amigo.
- Por que voc no me d seu telefone? Podemos sair juntos e vou lhe mostrar alguns dos meus filmes ... se voc estiver interessado. So na maioria documentrios 
- disse Scott, soando acanhado. - Viagens, histria, entrevistas ... voc provavelmente ache estranho.
- No. Parece legal - respondeu Miguel.
Scott escreveu o nmero de telefone de Miguel numa cadernetinha dentro de sua carteira. - Talvez possamos fazer um documentrio sobre a experincia dos filpinos 
nos Estados Unidos - disse ele entusiasmado. - Tem uma garota no desfile de hoje que seria perfeita para isso. Ela  realmente  fotognica, veja voc mesmo. - Scott 
abriu sua carteira e a entregou a Miguel.
Miguel olhou a fotografia de escola - e sentiu como se todo o ar lhe fosse tirado por um golpe forte e rpido. Ele segurou na ponta da passarela para apoiar-se. 
O que a foto de Leanna fazia na carteira de outro cara?
- Esta ... Leanna! - ele falou com a voz entre cortada, apontando para a carteira de Scott.
- Voc a conhece? - perguntou Scott, parecendo totalmente alheio  angstia de Miguel.
- Eu... eu achava que sim - disse Miguel baixinho. Tem que haver algum mal-entendido! Esta  a mesma Leanna que mora com os Van Haver?
- Mora com os Van Haver? - repetiu Scott. - Ela  uma Van Haver! Leanna s  meio filipina. A senhora e o senhor Van Haver so sua me e seu padrasto. O verdadeiro 
pai de Leanna mora em San Diego. - Scott colocou a carteira de volta no bolso e riu - Voc no deve conhecer Leanna muito bem.
- No ... mal a conheo - disse Miguellentamente. Scott, por outro lado, parecia conhecer Leanna muito bem. Scott tinha todas as informaes sobre a famlia dela.
"E ele tinha a fotografia dela na carteira!"
- Onde voc conheceu Leanna? - o sorriso de Scott ainda era simptico e sua voz, informal. No parecia estar com cimes ou desconfiado.
- No importa - Miguel murmurou. Um redemoinho de emoes varriam-lhe a mente. Queria odiar Scott, mas ele parecia ser um cara muito legal. Talvez Scott no soubesse 
que Leanna estava saindo com outro. Tentou odiar Leanna, mas sua raiva foi superada por uma exploso de profunda dor. A nica pessoa que Miguel realmente odiava 
era ele mesmo. Como pde ter sido to burro a ponto de confiar em Leanna, quando ela mentira para ele desde o minuto em que se conheceram?
- Algo errado? - perguntou Scott, franzindo a testa. Mas, nesse momento, foi interrompido por uma exploso de msica. - O desfile vai comear! Te vejo depois - disse 
Scott, levantando-se rpido. Ele ligou a cmera, enquanto uma mulher alta, de cabelos negros, com um vestido de noite, saiu detrs das cortinas
e deu as boas-vindas  platia do Desfile de Moda de Inverno. Balanando a cabea em desagrado, Miguel se afastou do palco e se dirigiu  sada mais prxima. No 
tinha mais nenhum motivo para ficar ali.
- Como estou? - perguntou Leanna nervosamente.
Kelli olhou Leanna, que usava calas justas vermelho vivo, saia preta e branca e um volumoso suter vermelho com cachorrinhos enfeitando o decote. - Como se estivesse 
pronta para seu primeiro dia no jardim de infncia.
Leanna tirou um fiapo de seu suter. - Pelo menos posso me sentar se quiser.
- Me conte como  isso - gemeu Kelli. Ela vestia um suter de pura l angor branca e haviam lhe dito para no se sentar ou se encostar em nada, enquanto aguardava 
a sua hora de entrar.
- Voc acha que Miguel est l fora? - perguntou Leanna. As garotas estavam no camarim h uma hora e no tinham tido a oportunidade de olhar a platia.
- Ele disse que viria, no? - perguntou Kelli, soando irritada. - Pelo que voc me contou, Miguel mantm suas promessas. No  como alguns dos idiotas com quem j 
sa.
- Garotas! Hora de entrar em fila! - Uma mulher com uma prancheta andava rapidamente pelo camarim, conduzindo as doze garotas para a porta.
Kelli virou-se para segui-las, mas Leanna pegou-lhe o brao, arriscando sujar o suter de angor branco.
- Aos seus lugares! Aos seus lugares! - gritava a diretora de cena, sacudindo sua prancheta freneticamente. Kelli e Leanna correram para os bastidores com as outras. 
Kelli entrou em seu lugar perto do fim da fila e Leanna, que era a mais baixa, foi para a frente. 
- ... Orgulhosamente apresentamos nossa coleo de roupas informais, perfeitas para a sala de aula e para esquiar.
Essa era a deixa para Leanna. De cabea erguida, ela saiu dos bastidores com passos firmes e vigorosos.
- Leanna est vestindo um conjunto clssico de saia e suter da Cool Clothes - anunciou a mestre-de-cerimnias.
Leanna parou um momento em frente  cortina dourada brilhante. Ento, enquanto a mulher com o micrfone continuou a falar sobre a roupa, Leanna desfilou pela passarela, 
dando voltinhas para mostrar sua curta saia rodada.
Enquanto virava e sorria, seus olhos procuravam na platia. Ela no tinha visto Miguel, mas seus olhos no conseguiram ver direito nenhuma das fileiras. Ela tinha 
que continuar andando e girando. Em segundos, sua apresentao tinha acabado e ela correu de volta ao camarim para colocar a prxima roupa - um quente conjunto de 
esqui rosa. .
Leanna estava fechando o zper da jaqueta quando Kelli entrou correndo no camarim, alguns minutos depois. - No vi Miguel na platia - disse Leanna ansiosamente. 
- voc o viu?
Kelli tirou o suter branco pela cabea. - Nao, mas voce estava to concentrada na sua apresentao l fora que provavelmente tambm no viu Scott.
- Scott est aqui? - perguntou Leanna, enfiando o cabelo num gorro de tric cor-de-rosa. Ela no pensara em ningum a no ser em Miguel.
Kelli riu. - Viu o que estou dizendo? Ele estava bem na passarela , filmando, e voc nem o viu.
Na prxima vez em que Leanna entrou no palco, viu a sombra da figura de Scott atrs da cmera. Mas estava mui.to ocupada se concentrando em sua apresentao para 
prestar muta ateno. Enquanto estava na passarela, tornou-se uma feliz e ativa garotinha numa viagem de esqui. Era sua funo convencer todos na platia de que, 
se comprassem aquela roupa, tambm ficariam lindos e felizes.
S quando o desfile terminou e Leanna estava tirando o suter tricotado  mo e as leggings verde-escuras com que desfilara por ltimo  que teve tempo de se preocupar 
com Miguel novamente. - Ainda no o vi, Kelli. E se no estiver aqui?
- Tenho certeza de que ele est l fora. - Kelli pegou um punhado de lenos de papel e limpou a forte maquiagem do rosto. - E, se no conseguiu vir, tenho certeza 
de que foi por um bom motivo. Aquele carro horrvel dele deve ter quebrado.
- Espero que no. - Leanna colocou seu prprio moletom pela cabea. 
- Ou ele pode ter tido um acidente - continuou Kelli, jogando os lenos de papel no cesto de lixo.
Leanna estremeceu. - Voc pensa no pior! Talvez ele s tenha decidido me dar o fora.
- No  provvel. - Kelli escovou o cabelo de Leanna e ento comeou a fazer-lhe uma trana. - Os garotos me do o fora. No do o fora em voc. Voc sempre tem 
namorados doces e leais.
Leanna virou a cabea para olhar surpresa para Kelli. - Como voc sabe? Miguel  apenas o segundo cara com quem eu saio.
- Vire-se! Est desmanchando seu penteado - ordenou Kelli. Leanna obedeceu e os dedos de Kelli se moveram rapidamente, arrumando o cabelo negro sedoso de Leanna 
numa trana bemfeita. - Voc no saiu com nenhum outro cara que apareceu - explicou Kelli. - Eu tinha tanto medo de ficar sozinha que disse sim a todos os que me 
convidaram para sair. Mas voc esperou pelos bons. Caras como Scott, que eu nunca poderia ter nem em um milho de anos.
- Voc gosta do Seott? - perguntou Leanna. - Ento por que no sai com ele?
- Ele nunca me convidou. - Kelli parecia irritada, como se qualquer idiota devesse saber a resposta. - Eu no ficaria surpresa se Scott estivesse arrependido por 
ter terminado com voc. Ele provavelmente est esperando uma chance para te beijar e fazer as pazes.
- Eu no acho. Eu e Scott ramos mais amigos que gostavam de sair juntos. No havia conflitos entre ns - admitiu Leanna. Ela pegou sua bolsa do encosto de uma cadeira 
dobrvel. - De qualquer forma... Miguel deve estar morrendo de fome. Bom, pelo menos eu estou. Vamos!
Leanna saiu apressada para o shopping center, achando que Miguel a estivesse esperando. Mas todas as cadeiras em volta do palco estavam vazias. Isto ... todas, 
exceto uma.
Scott levantou-se de um salto e dirigiu-se para Leanna, com um grande sorriso no rosto ... e um buqu de cravos cor-de-rosa nas mos.

Dezesseis
- Vai em frente, magoe Scott de novo, se tiver coragem. Vou esperar voc no carro. - Kelli deu um empurro em Leanna e saiu correndo.
Leanna endireitou os ombros e andou devagar em direo a Scott. Planejava deixar perfeitamente claro que era sua amiga e nada alm disso.
- Aonde Kelli est indo? - perguntou Scott, vendo ela se dirigir para a sada.
- Ela vai me esperar l fora. - Leanna sentou-se numa cadeira vazia. - Tenho que conversar com voc a ss.
Scott afundou numa cadeira prxima, colocando o buqu numa cadeira vazia entre eles. - O.k., o que h?
Leanna suspirou profundamente. - Scott, j passamos por isso antes. S no acho que damos certo como namorados. No posso aceitar estas flores - disse Leanna passando 
a mo no buqu cor-de-rosa.
- Isso  bom, porque elas no so para voc. - O rosto de Scott ficou rosa da cor das flores. - Kelli no  alrgica a cravos, ?
- No que eu saiba - respondeu Leanna distrada. Quando entendeu o significado das palavras de Scott seus olhos se arregalaram. - Voc gosta de Kelli?
O rosto de Scott ficou vermelho at as pontas de suas orelhas. - Bom ... sim - ele disse. - Gosto de Kelli h muito tempo. Mas ela sempre sai com uns caras populares, 
como Glenn Garrick, ento achei que nunca se interessaria por mim.
- Ento durante todo o tempo em que samos, voc s estava me usando? - Leanna bateu de brincadeira no brao de Scott. - No posso acreditar!
Scott brincava com os botes de seu velho colete. - Eu no diria isso - murmurou. - At sair com voc, eu achava que era um fracassado com as garotas. Eu nem pensava 
em convidar Kelli para sair. Seria como ... como convidar uma estrela de cinema ou algo assim. A voc apareceu. Uma garota bonita e popular, que
era legal comigo. Serei sempre grato a voc por me dar autoconfiana.
Porm, Scott no parecia confiante. Parecia at muito infeliz, pensou Leanna.
- Kelli e eu ... oh,  provavelmente impossvel- ele murmurou, levantando os culos. - Mas tenho que tentar.
Leanna ps a mo no ombro dele. - No  to impossvel quanto voc pensa.
- O que voc quer dizer? - perguntou Scott levantando a cabea rpido, com os olhos brilhando intensamente, cheios de esperana. - Kelli gosta de mim?
Leanna riu. - Acho que voc mesmo deveria perguntar a ela.  
O rosto magro de Scott se iluminou de alegria. - Obrigado, Leanna! Obrigado por tudo!
De repente, ele se jogou e deu um abrao de irmo desajeitado em Leanna, que no conseguiu conter o riso amassando as flores. Ela deu umas batidinhas no ombro de 
Scott ...e ento a risada murchou de repente, Miguel estava sentado vrias fileiras atrs deles, com os braos cruzados sobre o peito. Ele os observava com dio 
no olhar.
- Scott! - disse Leanna com a voz entre cortada, lutando para sair de seus braos. - Miguel...
- Oh, um cara chamado Miguel esteve aqui cedo. Ele acha que voc  um tipo de estudante de intercmbio ou algo parecido, mas eu lhe expliquei tudo. - Scott viu Miguel 
se dirigindo para a sada. - Ei, l est ele! - Scott chamou e acenou. - Ei, amigo, aqui!
Miguel virou-se para encar-los com um olhar de puro desprezo. Leanna se sentiu como se um dardo envenenado tivesse atravessado o peito. Sem uma palavra, Miguel 
virou-se de novo e caminhou para a sada do shopping.
- Qual  o problema? - perguntou Scott.
- Miguel, espere! - gritou Leanna, levantando-se de um pulo e correndo atrs dele. - No v embora! Posso explicar!
Ela alcanou Miguel quando ele estava quase na porta.
Com os braos cruzados, Miguel encostou-se na parede. - Isto vai ser engraado - ele disse. Seus lbios estavam crispados de raiva. - Que parte voc quer explicar 
primeiro, Leanna? O fato de voc ser uma Van Haver ou o de estar saindo com Scott?
- No estou saindo com Scott. - Leanna se colocou na frente de Miguel. - Ns terminamos h semanas. Somos apenas amigos.
- Certo. - zombou Miguel. - Voc abraa todos os seus amigos daquele jeito?
- V perguntar ao Scott. Ele lhe dir a mesma coisa.
Os lbios de Miguel se moldaram num sorriso amargo. - Isso no  suficiente. Voc j fez com que amigos - e parentes mentissem por voc antes.
- Voc tem razo - admitiu Leanna. Estava na hora de ser honesta. - Te contei muitas mentiras, Miguel, mas estou te pedindo para me perdoar. Eu te amo, e esta  
a verdade.
Por um momento, as duras linhas no rosto dele pareceram se suavizar. Mas ento ele falou bruscamente: - Amor! O que voc sabe sobre amor?
Os olhos de Leanna se encheram de lgrimas. Ela as conteve e continuou sem pensar muito. - Sei que voc me ama. Descobri o que significa mahal kita. E voc no diria 
eu te amo se no fosse verdade. Por favor, me d outra chance.
- Voc deve estar brincando. Como pode me pedir para confiar em voc? - gritou Miguel, com os olhos faiscando de raiva. - Voc mentiu para mim. Virou as costas para 
a sua prpria famlia para conseguir o que queria. Voc  to centrada em voc mesma que nem percebe o que fez.
Ele comeou a afastar-se, mas Leanna agarrou-lhe o brao. - Posso explicar - ela comeou.
- No toque em mim - exclamou Miguel. Sua voz estava to fria que Leanna rapidamente deu um passo atrs. Olhando atravs de Leanna, como se ela no estivesse, Miguel 
empurrou a porta de sada do shopping e saiu com violncia.
Leanna respirou profundamente, tremendo, tentando no chorar. Era estranho, mas de repente s havia um buraco enorme e vazio no seu peito, como se metade de seu 
corao tivesse sido arrancado. O resto de seu corpo parecia frio e adormecido.
- Ei, Leanna, voc est bem? - Scott se aproximou, com uma expresso preocupada no rosto. - O que aconteceu?
- S um mal-entendido - disse Leanna, erguendo o queixo em desafio. - Eu e Miguel amos sair para comer uma pizza, mas parece que ele mudou de idia. Isso  uma 
boa notcia para voc, Scott. Kelli ia conosco, mas agora est completamente livre. Espere aqui... vou cham-la!
Leanna correu para fora, meio que esperando ver Miguel e sua caminhonete toda batida. Mas o estacionamento era enorme e tantas pessoas iam e vinham na calada que 
Miguel j tinha sumido
entre a multido.
"Miguel voltar", pensou Leanna. Ele telefonaria depois que tivesse um tempo para se acalmar. Ou no?
Leanna passou o resto da tarde em casa, estudando seu dicionrio de ingls-tagalo. Ouvir as fitas era mais fcil, mas Leanna no queria usar fones de ouvido, com 
medo de no escutar o telefone tocar, caso Miguel ligasse.
Mas o telefone no tocou. Finalmente, Leanna fechou o livro. "Vou ligar para ele", decidiu. O pior que ele podia fazer era desligar.
Leanna pegou o fone. O telefone tocou trs, quatro, cinco vezes. "Ele no est em casa", pensou, meio decepcionada e meio aliviada. Mas, quando ia desligar, escutou 
uma voz de homem na linha.
- Al? Quem ?
"Ele no parece bravo", pensou Leanna, sentindo uma onda de esperana. Antes de perder a coragem, Leanna respirou profundamente e comeou a falar rpido - Miguel, 
oi.  Leanna. Eu realmente sinto muito. No queria ...
- Espere um pouco - interrompeu a voz. - Sou Ramon. Meu irmo est no trabalho. Quer deixar recado?
- No, obrigada. - Leanna desligou com um n na garganta. Ramon tinha a voz to parecida com a de Miguel!
No podia esperar at que Miguel sasse do trabalho. Tinha que fazer alguma coisa j. Foi at a salinha de estudos, onde o padrasto estava jogando no computador.
- Oi, pai. Posso pegar seu carro emprestado? Quero ir ao shopping comprar um batom novo. - Leanna pediu com doura.
- Claro, querida. Dirija com cuidado - disse o pai distrado. Os olhos dele estavam fixos na tela, onde um homem musculoso animado atravessava um rio a nado, enquanto 
lagartos voadores desciam para atac-lo.
Leanna estava quase saindo quando seu pai a chamou: - Espere! E o jantar? Kelli e sua me devem estar em casa em uma hora. Achei que seria divertido tentar uma receita 
daquele livro de cozinha filipina que eu trouxe para casa ontem.
- No vou demorar - prometeu Leanna. Ela encontraria Miguel no trabalho e ele teria que escut-la. No poderia desligar, nem ir embora.
Miguel estava no trabalho h menos de uma hora e j estava pensando que teria sido melhor ligar e dizer que estava doente. No podia tirar Leanna da cabea. Era 
difcil acreditar em como as coisas tinham mudado to rpido. Num minuto, ele achava que Leanna era a melhor coisa que j tinha lhe acontecido. No minuto seguinte, 
havia visto a foto dela na carteira de outro cara e descoberto que ela tinha mentido para ele desde o momento em que se conheceram.
Sair com dois caras ao mesmo tempo j era bastante ruim, mas fingir ser algum que ela no era era imperdovel. Ao mentir sobre sua herana filipina, Leanna estava 
passando por cima de tudo que era importante para Miguel. Ele no queria v-la de novo.
- Ei! - gritou um garoto adolescente do balco. - Eu pedi uma cherry cola. Isto  uma diet normal.
- Desculpe - disse Mguel, substituindo rapidamente a bebida. O garoto a pegou e entrou no Cinema Trs. Miguel esvaziou a garrafa diet na pia. Quando se virou, escutou 
seus dois colegas sufocando o riso.
- Parece que voc no consegue se concentrar no trabalho hoje - disse Tom, esticando o brao para pegar um punhado de pipoca da mquina e colocar tudo na boca.
-  melhor ter cuidado - avisou Danette. - Trocar os pedidos pode ser motivo para ser mandado embora.
- Voc ia gostar disso, no? - Miguel respondeu furioso  garota ruiva. - Voc est sempre no meu p! Me deixa em paz uma vez.
Danette se encolheu na direo de Tom, com olhos arregalados, fingindo que estava com medo. - Tom, me salve! Ele perdeu a cabea!
Miguel virou-se, balanando a cabea em desaprovao. Conhecendo Danette, ele sabia que ela provavelmente ia contar ao gerente alguma histria exagerada sobre como 
ele a tinha" atacado".
Era bem o que ele precisava. O final perfeito para um dia infeliz.
E ainda no havia acabado. Um grupo de fregueses chegou  lanchonete e por alguns minutos Miguel ficou to distrado atendendo os pedidos que, alm de esquecer Leanna 
e suas mentiras, acabou queimando seu dedo numa tigela de nachos quentes. Quando correu at a pia e ps o dedo debaixo da torneira de gua fria, Miguel no acreditou 
no quanto doa. A pele j estava se levantando numa bolha.
- Miguel! Fregus no caixa!
Ele teve vontade de mandar Danette atender. Mas quando se virou viu que, dessa vez, Tom e Danette estavam to ocupados quanto ele. Tom estava servindo bebidas e 
Danette enchia vrios sacos de pipocas.
Suspirando, Miguel enxugou seu dedo latejante e se aproximou do caixa. - Posso ajudar ... O que voc est fazendo aqui?
Leanna Malig - no, Leanna Van Haver - estava parada perto do caixa no balco. Ela enrolava a ponta de sua trana, mordia o lbio e no o olhava nos olhos. 
- O que voc quer? - perguntou Miguel bruscamente.
- Quero ... quero falar com voc - Leanna gaguejou. Ela se encolheu um pouco.
- No temos nada para conversar - disse Miguel friamente. - O que voc quer? Quer pipoca?
- No. J tive que comprar um ingresso s para poder entrar e te ver - disse Leanna. - No posso parar de pensar em voc. Voc no pode me dar outra chance?
De repente, Danette estava ao lado dele. - Miguel - ela disse severamente -, j te disse para deixar sua vida pessoal em casa. O trabalho no  lugar para conversar 
com a sua namorada.
- Ela no  minha namorada! - falou Miguel rispidamente.
- Miguel, realmente temos que conversar - continuou Leanna.
Ser que ela no estava percebendo que estava criando dificuldades? Provavelmente no, pensou Miguel. Como de hbito, Leanna s estava pensando nela mesma.
- J te disse antes, no tenho nada para te dizer - disse Miguel asperamente.
-Mas ...
- No! - explodiu Miguel. - Voc entende a palavra no? Ou  s outra palavra - como amor e confiana - que voc no entende?
Leanna ficou vermelha. - timo! - gritou. - Se  assim que voc se sente, vou embora. Voc no  o nico cara no mundo.
Enquanto Leanna saa sem olhar para trs, Miguel percebeu que tinha ido longe demais. Sabia que no veria Leanna de novo.
"timo", pensou Miguel. "Era exatamente assim que eu queria."

Dezessete
- No - disse Miguel ao telefone. - De jeito nenhum. No mesmo.
Era sbado de manh, duas semanas depois que ele descobrira as mentiras de Leanna. Miguel esperava nunca mais ver Leanna ou algum ligado a ela de novo. Mal podia 
acreditar que Scott havia telefonado. Mais inacreditvel ainda era que aquele mesmo Scott tinha tido a coragem de lhe pedir um favor.
- Olha, eu no pediria se houvesse qualquer outro jeito - disse Scott. - Mas meu carro no quer pegar. Meus pais esto viajando e todo o mundo que conheo ou no 
est em casa ou j est no desfile. Esto contando comigo, cara. Se eu no aparecer, no vai ter ningum para filmar o desfile. - Voc no pode pegar um txi? - 
perguntou Miguel. Ele sabia que estava sendo antiptico, mas o que Scott esperava? O
cara tinha muita cara-de-pau de pedir-lhe uma carona!
- Meu equipamento no cabe num txi e voc poderia me ajudar a carreg-lo. Alm disso, estou duro - disse Scott. - Se voc me der uma mo, divido o dinheiro que 
vou ganhar com esse trabalho. Sei que nunca samos juntos, mas voc me pareceu legal. Vamos, cara, me faz esse favor e vou ficar te devendo um grande.
- No sei - disse Miguel que poderia usar esse dinheiro extra para comprar novos estofamentos para seu carro. Mas desfiles de moda no estavam na lista das suas 
atividades mais importantes, alm do que definitivamente ele no queria topar com Leanna.
Lendo seus pensamentos, Scott disse: - Se  por causa de Leanna, voc no deve se preocupar. Eu e Leanna terminamos h muito tempo. Na verdade, estou saindo com 
Kelli.
Miguel levantou as sobrancelhas. No entendia o gosto de Scott para garotas. As garotas Van Haver eram uma fria.
- Obrigado por me contar - disse Miguel, sentindo-se um pouco melhor, sabendo que Leanna e Scott no estavam se encontrando, mas isso no eliminava as outras mentiras 
dela. - No estou mais interessado em Leanna. Mas v-la no desfile pode ser meio ... estranho, sabe o que quero dizer?
- No se preocupe com isso.  um desfile de modas masculino. So todos homens - explicou Scott. - Leanna no vai participar e nem estar l. Kelli tem uma sesso 
de fotos importante hoje em So Francisco e Leanna foi com ela para ajud-la com a maquiagem.
Por um momento, Miguel se perguntou se esse era algum tipo de armao. Talvez Leanna tivesse pedido a Scott para telefonar e convencer Miguel a ir a esse suposto 
desfile de moda masculino, onde Leanna estaria esperando. Esse tipo de plano desonesto era bem do estilo de Leanna.
"No pense nisso", pensou Miguel. Rapazes no prestam esse tipo de favores  suas ex-namoradas. Ele estava realmente enganado de pensar que Leanna pudesse estar 
por trs disso. Scott parecia desesperado por uma carona e Leanna com certeza no se importava com ele a ponto de fazer manobras to complicadas.
- O.k., vou com voc. - Miguel suspirou. Enquanto explicava como chegar a sua casa, Miguel pensava se no estaria cometendo um grande erro.
- Eu, Leanna. - A voz de Glenn Garrick ao telefone era superconfiante, como sempre. - Se voc no estiver ocupada hoje, o que acha de ir comigo ao desfile no Memorial 
Auditorium? E em troca, se voc me ajudar a arrumar o meu cabelo, depois te levo ao melhor restaurante da cidade.
Leanna no acreditava no que estava ouvindo. Glenn achava que todas as garotas do mundo morriam de vontade de sair com ele. E no importava quantas vezes dissesse 
"No", que Glenn no se mancava.
- Oh, Glenn, isso parece maravilhoso - respondeu Leanna ironicamente. - Mas por que a honra de pentear o seu cabelo? Sua me est viajando?
- Na verdade, ela est em Los Angeles, mostrando meu portflio para um agente - disse Glenn elevando a voz, com excitao, como sempre acontecia quando falava sobre 
si mesmo. - Mame acha que estou desperdiando meu potencial em Bayside. Acha que devo tentar Hollywood. No ano que vem, voc vai me ver na telona!
Enquanto Glenn continuava falando de sua chance de estrelato, Leanna cobriu o bocal do telefone. - Glenn Garrick - disse a Kelli, a DeShaun e a Sara, que estavam 
embrulhando uns lanches para a viagem at So Francisco. - Ele est me convidando ou para sair ou para ser sua cabeleireira, no tenho muita certeza ...
- V! - disse Sara. - Glenn  to bonito, to sexy...
- To tonto, to convencido - continuou DeShaun. - Achei que voc ia com a gente para So Francisco.
- Ento, posso ir te buscar em uma hora? - perguntou Glenn.
- Espere s um segundo - lhe disse Leanna.
- Bom, t. - Glenn parecia irritado, como se no pudesse entender como algum tinha que pensar duas vezes para aceitar um convite dele.
Leanna ps a mo sobre o bocal de novo. A imagem dela gritando para Miguel"Voc no  o nico cara no mundo!" passou-lhe pela cabea. Ela tinha ficado to brava 
que prometera sair com o primeiro cara que a convidasse. Mas ser que estava to desesperada a ponto de sair com Glenn?
- O que voc acha? - ela perguntou a Kelli.
- Glenn  divertido, desde que voc no se apaixone por ele - disse Kelli pondo outra ma dentro de sua mochila. - Talvez se voc sair com Glenn pare de chorar 
por causa de Miguel.
- Isso  verdade - bufou DeShaun. Ela bateu a porta da geladeira. - Acredite em mim, Glenn no vai te deixar pensar em ningum a no ser em Glenn, Glenn, Glenn. 
At voc voltar para casa, no lembrar nem de seu prprio nome, quanto mais do de Miguel.
Leanna riu com amargor. -  exatamente disso que preciso. - Ela descobriu o bocal e disse: - O.k., Glenn. Me pegue em uma hora.
***
- Miguel, voc poderia pr aquela lmpada na tomada?- pediu Scott. Miguel o estava ajudando a montar a cmera de filmagem e o equipamento de iluminao no palco 
do Memorial Auditorium no centro de Sacramento.
Miguel pegou o fio e se dirigiu para a tomada mais prxima. - O fio no alcana - disse a Scott. - Posso mover a lmpada         uns quinze centmetros para a esquerda?
- No  boa idia - respondeu Scott comeando a desdobrar um trip. - A lmpada tem que ficar exatamente onde est ou vamos ter muito brilho no rosto dos modelos. 
Trouxemos uma extenso?
Miguel olhou rapidamente na confuso do equipamento. - No estou vendo nenhuma.
- Como posso ter sido to burro? - gemeu Scott, passando os dedos pelos cabelos loiros. - O.k., veja se consegue encontrar o zelador nos bastidores. Talvez ele tenha 
uma extenso.
Miguel empurrou as pesadas cortinas vermelhas de veludo e se enfiou entre elas. A rea dos bastidores era um caos. Havia uma tonelada de rapazes passando por l 
... todos maquiados. Miguel nunca entenderia essa coisa de modelo.
Ele parou um homem alto que carregava uma prancheta. - Me desculpe, voc sabe quem  o zelador?
O homem olhou para Miguel atravs de culos redondos coloridos. - No, mas quem  voc?  um dos modelos?
- Estou ajudando Scott Carteret - disse Miguel rapidamente. - Estou procurando uma extenso.
- Cheque o armrio do depsito no fim do corredor. - O rapaz apontou com sua prancheta. - Mas espere! Voc j trabalhou como modelo? Comerciais de TV?
- No - disse Miguel. E comeou a se afastar.
O rapaz com a prancheta o seguiu. - Voc tem uma tima aparncia! J pensou em ser modelo?
Miguel balanou negativamente a cabea. - Na verdade, tudo o que eu gostaria  de achar uma extenso.
- O.k., mas se mudar de idia, me ligue.
o homem colocou um carto na mo de Miguel, que olhou para as letras em destaque. TYRONE ASHBY,AGENTE DETALENTOS.
Miguel balanou novamente a cabea. Era muito estranho. O senhor Ashby comeou a organizar os modelos em fila e Miguel procurou um cesto de lixo. No achou nenhum, 
ento enfiou o carto no bolso e dirigiu-se para o fim do corredor.
Passou por alguns camarins cheios de rapazes, que ajeitavam as gravatas ou passavam um pente pelos cabelos. As trs portas seguintes estavam fechadas. A primeira 
era claramente um banheiro, mas uma das outras duas poderia ser a do depsito.
Miguel bateu numa das portas. Como ningum respondeu, ele virou a maaneta, abriu a porta e entrou.
Imediatamente percebeu que tinha entrado em outro camarim. O rapaz que estava dentro, em p do outro lado da sala de costas para a porta, aparentemente no ouvira 
a batida de Miguel porque falava em voz alta. - Ento vou para Hollywood, assim que mame decidir qual  o melhor agente. Todos me querem, voc sabe,  s questo 
de quem oferece o melhor contrato. Vou acabar o colegial com um professor particular e depois ... bom, quem precisa de colegial quando se  uma estrela?
Miguel sabia que devia sair imediatamente da sala, mas no conseguiu deixar de olhar para o rapaz. Ele parecia estar falando consigo mesmo. No fizera uma pausa 
para respirar e ningum na sala respondia. Mas havia algum l. Uma garota estava escondida atrs das costas largas do interlocutor. De vez em quando, Mguel via 
um relance de pequenas mos se esticando e ajeitando a parte da frente do cabelo castanho claro do rapaz. 
- Glenn, fique parado! - A voz da garota de repente interrompeu o monlogo do rapaz. - Se voc no parar de se mexer, posso te queimar com este ferro de cachear 
cabelos!
O sangue de Miguel transformou-se em cido fumegante. Leanna! Ela no perdia tempo para arrumar um novo namorado. Miguel tinha que ver como era a cara desse bolha.
- Desculpe-me - disse Miguel, andando em direo ao casal. - Vocs podem me ajudar a encontrar o armrio de depsito?
Glenn virou-se. Ele realmente parecia um ator.
- Aqui no  o armrio de depsito - disse Glenn com arrogncia. - Cai fora.
- Mas j estou fora - disse Miguel alegremente. Ele ignorava Glenn e olhava Leanna em busca de alguma reao. O rosto dela estava totalmente sem cor e seus olhos 
amendoados estavam to arregalados que pareciam redondos.
Ela parecia abismada, um pouco embaraada, pensou Miguel com satisfao.
"E absolutamente linda."
- O que voc est fazendo aqui? - Leanna balbuciou.
- Procurando uma extenso - respondeu Miguel. Ele apontou para um fio branco, que ligava o ferro de cachear na tomada. - Que tal essa?
- No! Esse  meu - disse Glenn indignado. - Leanna, voc s fez uma onda no meu cabelo. Eu pedi duas.
- Ei, Leanna, voc nunca arrumou o meu cabelo quando saamos juntos - disse Miguel que se encostou na parede, perto do rosto de Leanna, mexendo na franja. - O que 
voc acha? Preciso de condicionador?
Miguel no sabia ao certo o que estava tentando provar. S sabia que teve uma necessidade sbita e irresistvel de ser o mais irritante possvel. No agentava ver 
Leanna to perto de Glenn, mexendo no seu cabelo. Se conseguisse tirar Leanna do srio, esperava poder odi-la de novo, em vez de quer-la de volta.
Seu plano parecia estar funcionando.
- Saia daqui - disse Leanna friamente, comeando a fazer uma segunda onda no cabelo de Glenn.
- Voc saa com este porteiro? - perguntou Glenn a Leanna. Ele agia como se Miguel nem existisse.
- No sou um porteiro - disse Miguel. - Estou ajudando Scott com as luzes.
- ? - o cabelo de Glenn estava pronto e ele se virou para Miguel. - Certifique-se de manter aquela luz sobre mim, garoto. Sou a estrela deste show.
- Voc pode ser a estrela - disse Miguel em voz baixa -, mas no sou seu" garoto".
- Posso dizer o que eu quiser - Glenn retrucou. - Meus pais pagam impostos, mas vocs imigrantes entram neste pas ilegalmente e tiram empregos dos americanos. Quer 
que eu chame a Imigrao?
Miguel no podia acreditar na arrogncia de Glenn e estava tentando resolver se brigava ou ria de Glenn, quando Leanna, que at ento tinha ficado em silncio, de 
repente se colocou entre eles.
- No posso acreditar no que voc est dizendo, Glenn. - Leanna estava de costas para Miguel, mas pela posio de seus ombros e pelo tom de sua voz, Miguel podia 
imaginar o olhar bravo em seu rosto. - Miguel no  um "imigrante". A famlia dele veio das Filipinas e...
As narinas de Glenn tremiam. - Esses estrangeiros esto conquistando o pas. Me d enjo!
- Sou filipina e tenho orgulho disto! - gritou Leanna, com as mos na cintura. - Tambm te dou enjo, Glenn?
- Claro que no! - Glenn parecia realmente chocado. - Claro que no. Estou falando de gente que vem de outros pases. A maioria deles recebe penso do governo, destri 
os bairros e comete crimes. Por que devem ter direitos iguais aos dos cidados americanos?
- Porque somos seres humanos - disse Leanna.
Miguel percebeu que Leanna se colocou na mesma posio - e no havia como no considerar sua sinceridade. Ela no estava tentando impression-lo. Ela estava sendo 
sincera.
- No  de onde voc vem que importa - Leanna disse a Glenn. -  que tipo de pessoa voc  por dentro. Miguel  honesto e trabalha duro, mas voc  um idiota convencido!
- O que est acontecendo aqui? - perguntou algum que acabava de entrar. O agente, Tyrone Ashby, apareceu na porta. - Cinco minutos para a hora de entrar! Glenn, 
saia da!
- Estou saindo, tudo bem - disse Glenn. Ele pegou uma mochila do cho e comeou a colocar escovas e maquiagens dentro dela. - Vocs podem continuar o seu espetculo 
de mau gosto sem mim!
Tyrone correu para Glenn, implorando-lhe que no deixasse seus problemas pessoais interferirem no trabalho.
Miguel mal notou Glenn e o agente. Toda a sua ateno estava voltada para Leanna. Ela se virou para ele, com lgrimas nos olhos.
- Miguel, sinto ter mentido para voc - disse. - Sei que voc nunca vai me perdoar. Mas eu queria te agradecer. Por sua causa, aprendi a amar minha herana filipina. 
Espero que algum dia possamos ser amigos.
Miguel sentiu um aperto na garganta e, de repente, sabia que amizade nunca seria suficiente. - Leanna - ele comeou. Mas, ento, sentiu seu corpo bater na parede, 
enquanto Glenn passava de qualquer jeito para chegar at a porta. Miguel mal recobrara a respirao, quando Tyrone pegou-lhe no brao.
- Voc vai ter que assumir o lugar de Glenn! - gritou Tyrone. - Voc tem o corpo certo, os mesmos ombros - podemos fazer a barra das calas com fita adesiva.
- Miguel odeia desfiles - disse Leanna. - Ele no vai fazer isso ... vai, Miguel?
De repente, Miguel sabia que faria qualquer coisa que fizesse Leanna sorrir. Alm disso, era em parte por sua culpa que Glenn tinha indo embora do desfile. Se Miguel 
se recusasse a substitu-lo, muitas pessoas ficariam desapontadas.
- O.k., - ele disse. - Mas sem maquiagem.
- No h tempo para maquiagem. - Tyrone arrastou Miguel para um cabide com roupas. - Leanna, v dizer a eles para atrasarem o comeo.
- Leanna! - chamou Miguel. - Espere um segundo.
- O qu? - ela perguntou com esperanas.
- Voc pode falar com ela depois! - Tyrone quase gritou. - Vista este terno!
Miguel apontou para o ferro de cachear cabelo que Glenn esquecera. - O fio de extenso. Scott est precisando!
- O.k. - Leanna falou baixinho. Por causa de sua expresso decepcionada, Miguel percebeu que ela esperava que ele dissesse outra coisa.
* * *
"Miguel parece timo l em cima", pensou Leanna. Ele caminhava com graa e seus ombros largos e quadris estreitos eram perfeitos para desfilar os ternos do estilista 
que ele estava usando. Claro que seus tnis brancos ficavam um pouco esquisitos com os ternos, mas ela esperava que ningum mais na platia tivesse notado. Na primeira 
vez em que Miguel atravessou a passarela ele parecia nervoso. Mas, a cada nova entrada, parecia relaxar, at que seu sorriso amarelo se tornou um sorriso de verdade.
"Ser que estou vendo coisas?", perguntou-se Leanna. Parecia que Miguel estava se divertindo! Na ltima vez em que desfilou, parecia estar se gabando! No s isso, 
mas enquanto se movia em compasso com a msica, seus olhos nunca perderam os de Leanna. Parecia que ele estava fazendo isso s para ela.
Quando o desfile terminou, Leanna correu para os bastidores. Ela encontrou Miguel parado na porta de seu camarim, falando com Tyrone. Leanna sentiu os joelhos fraquejarem.
Mas ento Miguel olhou diretamente para ela. "Me salve", os olhos dele pareciam dizer.
Leanna caminhou at ele.
- Aqui est voc! - disse Miguel. - Desculpe-nos, Tyrone. Estamos atrasados para uma coisa.
- O que era aquilo? - Leanna perguntou, enquanto seguia Miguel pelo corredor.
- Tyrone diz que tenho "visual", seja l o que for. Ele quer me matricular em Bayside, com especializao em modelo. Mas isso no  importante agora. - Miguel abriu 
a primeira porta que viu pela frente e entrou. - Vem aqui, preciso falar com voc. 
- Num armrio de vassouras? - perguntou Leanna, entrando numa salinha cheia de esfreges, vassouras e estantes com artigos de limpeza.
- Acho que no  o lugar mais romntico - disse Miguel. - Mas, tambm, no  o pior erro que eu j cometi. Meu pior erro foi terminar com voc.
Leanna segurou a respirao. Ela se encostou nas prateleiras. - Voc me perdoa?
- Eu tambm estava errado, Leanna. - Miguel engoliu em seco. - Quando voc disse aquelas coisas ao Glenn, eu percebi que era to preconceituoso quanto ele. Queria 
que voc fosse parte do meu mundo, mas no estava pronto para aceitar o seu. Eu no respeitei as coisas que eram importantes para voc.
- Eu no te dei a chance de saber o que era importante para mim, exceto, claro, ser modelo.
O rosto de Miguel ficou vermelho. - Me senti muito bem naquela passarela - admitiu. - Entendo por que voc gosta disso. No que eu esteja pronto para me matricular 
em Bayside.
- Mas voc tem "visual" - provocou Leanna. Ela deu um passo para a frente. No pde conter a mo, que tremia enquanto ela penteava para trs a franja de Miguel. 
- Voc s precisa de uns cachos aqui... e aqui.
Leanna sentiu os braos de Miguel se apertarem ao redor de sua cintura. Ela desceu um dedo atravs de sua bochecha macia, demorando-se no seu queixo forte.
- Leanna - comeou Miguel-, podemos tentar de novo? Estou pronto para fazer uns acordos. Por exemplo, podemos sair um dia para comer hambrguer e batata frita, desde 
que no dia seguinte a gente coma ensopado de rabo de boi.
- Eu topo se voc topar - disse Leanna. - Sou filipina, mas sou americana tambm. Gostaria que explorssemos as duas culturas. Juntos. - Leanna respirou fundo e 
esperava pronunciar direito.
- Mahal kita, Miguel.
Surpresa e prazer iluminaram os olhos escuros de Miguel. - Tambm te amo - ele disse. E selou a frase com um beijo.

FIM
